Os filmes premiados no Oscar deste ano compuseram a fornada mais "nojenta e reacionária dos últimos tempos", disse o filósofo e crítico cultural esloveno Slavoj Zizek, em palestra na noite de terça-feira (24) para cerca de mil pessoas no cinema Odeon, na Cinelândia, centro do Rio.
De jeans largo, tênis de couro surrado e camiseta promocional da rádio estatal italiana Rai 3, o radical de esquerda mais popular da atualidade veio lançar seu livro Em Defesa das Causas Perdidas (editora Boitempo). Não trouxe grandes novidades para uma plateia de estudantes e professores universitários familiarizada com sua verve eclética e caótica. Resumiu a hora e meia de fala conclamando o público a "pensar livremente", tirando o véu do discurso ideológico dominante nas democracias liberais, que considera conformista e avesso a riscos.
"É preciso procurar o que você não sabe que sabe, o desconhecido conhecido, o que não é dito mas fica implícito", disse, parafraseando o "filósofo Donald Rumsfeld", que foi secretário da Defesa de George W. Bush (2001-2009), na famosa declaração em que tentou explicar a ausência de armas de destruição em massa no Iraque, depois da invasão americana de 2003.
GAGUEIRA
O alvo principal de Zizek, 62, foram os ambientalistas, mas ele sacou vários exemplos do cinema, um de seus assuntos favoritos.
Disse que o britânico O Discurso do Rei, premiado com quatro estatuetas da Academia hollywoodiana, busca "reafirmar a autoridade paterna" ao retratar a relação entre Albert, futuro rei George 6º, e o plebeu Lionel Logue, um escroque que se vende como fonoaudiólogo.
"O rei guagueja e está certo, porque nenhuma pessoa normal pode aceitar ser rei por direito divino. Então a luta é para fazê-lo estúpido o suficiente para aceitar isso."
O filme americano Cisne Negro, que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman, é ainda pior, segundo Zizek. "A moral da história é que um homem pode ter uma profissão e uma vida privada, mas uma mulher não pode se dedicar totalmente à carreira, no caso o balé. Se ela tem um triunfo [interpretar a protagonista de 'O Lago dos Cisnes'], tem que morrer. Você pode imaginar uma mensagem mais reacionária?"
O esloveno voltou a apontar a ausência de cenas de sexo em blockbusters como o último James Bond (Quantum of Solace) e O Código da Vinci como indicativa de uma cultura em que perder o controle, na vida privada ou o pública, se tornou um estigma. Citou, a esse propósito, um agência de casamentos francesa cuja propaganda promete fazer com que os clientes amem sem se apaixonar.
Questionado se ele próprio não gostaria de fazer um filme, Zizek provocou gargalhadas ao inventar um roteiro com vários finais alternativos para "Antígona", em que a filha de Édipo é proibida pelo tio Creonte, rei de Tebas, de enterrar o irmão Polinice. Num deles, o coro da tragédia grega assume o protagonismo, institui um Comitê de Salvação Pública como o da Revolução Francesa e, em nome da vontade popular, condena à morte rei e sobrinha "que arruinam a cidade com suas disputas".
ECOLOGIA
O filósofo deu à palestra o título "A situação é catastrófica, mas não é grave", tirado de uma troca de mensagens entre militares alemães e austríacos na 1ª Guerra Mundial. No seu caso, foi uma referência ao aquecimento global e à engenharia genética, que para ele colocam o mundo na direção de uma potencial catástrofe. Mas a maioria das pessoas, disse, prefere não lidar com as consequências de levar esse risco a sério. "Propõem que sejamos realistas e equilibrados."
Zizek disse que estão enganados os que acreditam que a ecologia representará um limite natural para o capitalismo. "Pode, ao contrário, abrir caminho para um capitalismo mais radical. Daqui a pouco os americanos terão casas de praia no Canadá."
Ele afirmou que é preciso livrar o debate ambiental de "limitações ideológicas" que tendem a criar sentimento de culpa em pessoas bem intencionadas. Atacou o culto à Pachamama (Mãe Terra) promovido pelo presidente boliviano Evo Morales e os ambientalistas dos países ricos por acreditarem numa realidade mistificada. O planeta nunca foi "bonzinho" e formou-se numa sucessão de tragédias geológicas; "rituais obsessivos" de reciclagem e consumo de orgânicos do "estilo de vida ecológico" não resolvem o problema do aquecimento global, disse.