Nas últimas décadas, o discurso empresarial passou a apresentar os trabalhadores como "colaboradores" e "associados", os quais deveriam dedicar suas vidas em busca da "empregabilidade". No entanto, essa modificação no vocabulário é apenas o elemento mais superficial de um conjunto de mudanças que formam a mais recente "reestruturação produtiva" capitalista. As determinações e a significação desse processo são o objeto de análisse de Giovanni Alves, em seu novo livro Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. Autor de uma série de outras obras inseridas neste esforço de compreender as transformações no "mundo do trabalho".
O arcabouço teórico da obra é fundamentalmente marxista, tomando como referência - além de Marx e Engels - contribuições de importantes pensadores, tais como Lukács e Gramsci. Alves também incorpora as análises de David Harvey, François Chesnais e István Mészáros para traçar o painel do contexto de crise estrutural do capital, no qual a reestruturação sse insere. Além disso, o autor não se furta ao diálogo com perspectivas "externas" ao marxismo. Pelo contrário. Alves trava um debate franco com outras abordagens, seja para rechaçar ideias hegemônicas que desenham o quadro - no mínimo ingênuo - de uma "sociedade da informação" na qual a "qualificação" aparece como a solução para o desemprego; seja para incorporar dialeticamente ("superar conservado") determinadas contribuições, como se revela na sua iniciativa de se debruçar - ainda que de forma exploratória - sobre a obra de Freud, visando a extrair elementos para uma "teoria marxista da subjetividade".
Neste livro, Alves apresenta a reestruturação produtiva como um complexo de inovações tecnológicas, organizacionais e "sociometabólicas", cujo núcleo se encontra na dimensão organizacional, pelo fato de que se dirige diretamente à gestão do trabalho vivo. Assim, o toyotismo se apresenta como a "ideologia orgânica" da reestruturação produtiva, no sentido de que se tornou "senso comum" em qualquer empreendimento capitalista. No entanto, é importante destacar que Alves toma o conceito de "toyotismo" num sentido amplo, para além de sua gênese histórica (Japão, década de 1950), focando sua nova significação como tendência universal da produção, adequada ao contexto de mundialização/financeirização do capital, a partir da crise dos anos 1970.
Nesse movimento de universalização, o "espírito do toyotismo" invade as diversas regiões do globo e os variados ramos empresariais, ainda que com diferenciações em razão dessas particularidades e da mescla com formas de gestão antes predominantes. A "filosofia toyotista" se materializa em técnicas de gestão de força de trabalho, que visam, por um lado, a racionalizar os processos de trabalho e a elevar sua produtividade e, por outro, a fragmentar e solapar as resistências do trabalho organizado. O ideal de "empresa enxuta" exige flexibilidade, fluidez e integração máxima dos processos, as quais, por sua vez, dependem da "captura" da subjetividade dos trabalhadores por parte do capital, identificada por Alves como o "nexo essencial" do toyotismo.
No que tange à dimensão "sociometabólica", Alves apresenta um "novo clima ideológico", pautado nas ideias de "empreendedorismo", "capital humano" e "empregabilidade", que formam um conjunto de "valores-fetiche, expectativas e utopias de mercado". Dessa forma, Alves revela que expressões como "qualidade total", "flexibilidade", "polivalência", "colaboração", tão comuns no vocabulário empresarial contemporâneo, só têm valor quando consubstanciadas pela potencialidade de atender ao imperativo da acumulação capitalista.
Do ponto de vista do capital, o complexo da reestruturação produtiva constitui uma alternativa que não enfrenta a crise estrutural nos seus aspectos mais decisivos, mas joga seu ônus sobre a classe trabalhadora, por meio do desemprego estrutural e da "nova precariedade" do trabalho.
Do ponto de vista do trabalho, uma resposta contundente e radical, visando à superação desse "metabolismo da barbárie", depende da apreensão de suas contradições decisivas. Assim como Gramsci buscou o "calcanhar de aquiles" do taylorismo no seu "nexo essencial" (a ideia do "gorila domesticado"), deve-se buscar os limites do toyotismo no seu elemento central: a "captura" da subjetividade.
Isso porque os novos padrões de gestão exisgem dedicação e envolvimento irrestritos dos trabalhadores. Esse imperativo, porém, se contradiz profundamente com a falta de controle e autonomia efetivos e com a instabilidade e a vulnerabilidade da relação estabelecida. Assim, essa constante solicitação de um "novo nexo psicofísico" conjugada com a contínua frustração de tais estímulos, pode levar à perda gradativa de eficácia de tais paradigmas. Nesse contexto, o esforço realizado por Alves, no sentido de desenvolver uma "teoria marxista da subjetividade", é tão justificável quanto necessário.