Em 2008, Leandro Konder fez um balanço de sua vida, militância e pensamento num livro que ganhou o assumido título de Memórias de um intelectual comunista (Editora Civilização Brasileira). Com estilo franco e boas doses de humor, Konder passava em revista o curso de sua vida, deixando patente com a leitura, além da coragem em assumir posições políticas sempre à contramão (ser comunista foi pecado punido com perseguição na época da ditadura; hoje é tido pela hegemonia neoliberal por, no mínimo, anacronismo), a constatação do destemor também no campo das ideias.
Sua obra é diversificada, tratando de temas teoricamente difíceis (alienação e ideologia), polêmicos (história da esquerda no Brasil), inusitados para um comunista (o amor e a obra do humorista Barão de Itararé), inéditos (devemos a ele a apresentação de pensadores como Gramsci e Lukács). Além disso, Leandro Konder escreve com clareza, teve sempre propósito em dialogar com o leitor, com estilo elegante e amável (mesmo nas polêmicas). Não é por acaso que José Guilherme Merquior, que foi seu amigo de toda a vida, mesmo localizado no extremo oposto do espectro ideológico, dedicou a ele seu livro Marxismo ocidental, uma análise crítica da tradição que Konder vem honrando com sua honestidade intelectual.
No entanto, a unidade parece ser dada por vários aspectos além do projeto político. Sua obra, no conjunto, é um dos pontos mais altos do pensamento brasileiro em torno da discussão do legado marxiano, colocado de escanteio pela onda do “fim da história”, e que agora retorna com seu potencial interpretativo e prático. Além disso, em seus livros é perceptível a dimensão humanizadora da cultura socialista. Por fim, para o marxista que pagou por ser comunista de carteirinha, o tempo não para. Como escreveu no livro O futuro da filosofia da práxis, a melhor forma de defender o pensamento de Marx é historicizá-lo, o que significa saber reconhecer seus limites e apontar vias de superação.
Seu novo livro, Em torno de Marx, tem um pouco de todas essas vertentes. O ensaio começa reconhecendo as transformações do nosso tempo, como a mudança das condições de trabalho com a informatização dos processos de produção e gestão, por um lado; e o papel cada vez mais violento dos meios de comunicação de massa e da indústria cultural, com suas estratégias de manipulação por meio do entretenimento e do consumismo. Para enfrentar o novo cenário, Konder propõe uma volta a Marx. Mas reconhece que a tradição dos estudos nessa área é suficientemente conhecida, sobretudo nos campos da história, crítica da economia política e análise da luta de classes. O Marx que faz falta, de acordo com Leandro Konder, é o filósofo.
Humanismo
O livro se divide em três partes. A primeira, que dá nome à publicação, enfrenta a revisão por que passa o pensamento marxista – criado no século 19, com sua mais notável marca no século 20 e tomado por derrotas no começo do século 21 –, sem amenizar as críticas nem se perder em perspectivas ideológicas e salvadoras. Konder estuda temas como a moral, a religião, a história e a dialética, chegando ao grande tema filosófico da morte. Humanista, ao tratar de temas da tradição filosófica, escreve passagens literárias como esta, em que compara o destino de Marx ao de Ulisses, herói da Odisseia, de Homero: “Marx, ao longo de sua caminhada, identificou-se bastante com Odisseu. Talvez possamos sublinhar e até desenvolver essa identificação observando que Ulisses precisou lutar em Troia durante dez anos e, na volta para casa, em sua navegação até Ítaca, levou outros dez anos, porque caiu em desgraça em face de um deus, Posêidon, ninguém menos que o deus do mar. Desse modo, Ulisses podia ensinar a Marx como sobreviver a muitos naufrágios e continuar a participar da guerra pela liberdade e pela justiça”.
A segunda parte do livro, “A herança de Marx”, estuda autores ligados ao marxismo no século 20, como Theodor Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jean-Paul Sartre, Gyorgy Lukács e Antonio Gramsci, nomes que influenciaram Konder, alguns deles revelados ao leitor brasileiro em razão de seu trabalho, seja como intérprete, organizador de volumes de ensaios ou tradutor.
A terceira parte, “O marxismo no Brasil”, reúne dois pequenos ensaios. No primeiro, “Marxistas brasileiros: primeiros militantes”, analisa o fundo cultural do século 19 e a repercussão das ideias socialistas nos intelectuais brasileiros, do cético Machado de Assis à perspectiva social-democrata de Euclides da Cunha, além de comparar nosso cenário com o de países vizinhos, como a Argentina e o Uruguai. Konder apresenta a gênese da esquerda no Brasil, revelando nomes pouco conhecidos. Uma pequena joia ensaística, que mostra como é possível valorizar as condições objetivas sem deixar de lado as disposições subjetivas. O segundo texto, “A fala da direita no Brasil de 1936 a 1944”, examina um capítulo da repressão às ideias socialistas durante o Estado Novo, com um ideário fascista que não parece ter mudado tanto.
Não deixa de ser significativo que, num livro sobre a esquerda, o aviso final seja a permanência da cara raivosa da nossa extrema direita. “Dificuldades do campo de batalha”, diria Konder. A luta continua. |