Romance reconstituí assassinato (real) de Soledad Barret pela ditadura
É um romance, uma ficção. Mas é real a maior parte dos personagens de Soledad no Recife (Boitempo Editorial, 120 pp., R$ 29). Como foram reais os obscuros episódios que inspiraram o pernambucano Urariano Mota a escrever o seu segundo livro, um relato apaixonado em torno de Soledad Barret Viedma, a guerrilheira paraguaia que, grávida, foi delatada no início da década de 1970 por seu “subversivo” companheiro. Ele atendia por “Daniel”, “Jadiel”, “Jonas” ou “Jônatas”, codinomes utilizados por ninguém menos que José Anselmo dos Santos, o famigerado Cabo Anselmo. Soledad e cinco jovens ativistas foram assassinados nos porões da ditadura, depois de entregues pelo seu namorado, que passava uma temporada em Recife, onde infiltrou-se no meio de garotos que julgavam consertar o Brasil através da luta armada.
Eles foram denunciados ao então delegado do Dops, Sérgio Paranhos Fleury, que teria vindo à capital para desmontar o grupo. A época, amordaçados pela censura, os jornais deram man¬chetes como "Segurança acaba com terror no Grande Recife". "Seis terroristas mortos em Paulista" ou “Desarticulado um re¬duto terrorista em Pernambuco”. O noticiário de então indicava, ainda, que os integrantes chamada Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram surpreendidos num congresso na chácara São Bento, localizada na região metropolitana da capital. Pauline Reichstul, José Manuel, Evaldo Ferreira, Jarbas Pereira, Eudaldo Gomes e Soledad Barret Viedma teriam morrido em um tiroteio com as forças da repressão, naquela ‘célula’ clandestina, situada no litoral norte do estado. Na verdade, foram recolhidos, um a um, em locais diferentes e executados.
Guerrilheira inspirou poema do uruguaio Mario Benedetti
Urariano era amigo de uma das vítimas. Já havia chegado a acolher alguns militantes no quarto da pensão em que residia no Bairro da Boa Vista, onde escondia sob a cama um mimeografo para imprimir seus panfletos, como era costuma nos anos 1960 e1970. Não chegou a conhecer pessoalmente Soledad, mas apaixonou-se por ela 36 anos após sua dramática morte.
A vida de Soledad, por si só, valia uma biografia, para fazer justiça a uma mulher que,como tantas outras, se perderam na memória da História, Mas no caso de Uraríano, a pesquisa ¬aliada à própria experiência ¬serviu apenas como pano de fundo para escrever o romance sobre sua musa. E, pena, limita a vida e a morte da paraguaia ao Recife. No livro, narrado em primeira pessoa, o autor cria uma paixão impossível por Soledad, já que ela tinha "dono".
Quem foi Soledad Barret, a jovem que inspirou o poeta Mario Benedetti a dedicar-lhe um poema e que motivou o compositor Daniel Viglietti – uma espécie de Chico Buarque daquele país - a dedicar-lhe uma canção? Ela era neta de Rafael Barret, morto aos 33 anos. Nascido na Espanha mudou-se para o Pa¬raguai, chocou-se com a miséria do povo e assumiu a defesa dos nativos. Jornalista, poeta e pensador, é tido como um dos fundadores da literatura paraguaia. Teve dez ou onze filhos, todos militantes, inclusive Alejandro Rafael Barret, pai de Soledad, um dos fundadores do Partido Comunista paraguaio, e que foi obrigado a fugir da ditadura de Alfredo Stroessner. Criada neste ambiente, Soledad era ativista já na adolescência. Aos 17 anos, foi sequestrada por um grupo de simpatizantes da causa na¬zista, que a obrigaram a gritar "Viva Hitler". Mas ela gritava "Viva Fidel". Como represália, a espancaram e desenharam uma suástica em uma das coxas.
Depois, ela percorreu vários países, sonhando em derrubar as ditaduras, um devaneio comum aos jovens de sua geração na América Latina, então pontilhada de governos militares. Há depoimentos de pessoas fora do Brasil que, anos depois, a re¬conheceram em fotografias nas trilhas por onde andara com nome falso. Esteve em São Paulo uma primeira vez. O marido, Jo¬sé Maria Ferreira de Araújo, fora assassinado. O segundo – apresentado pelo primeiro, tambêm marinheiro - era o Cabo Anselmo. Aquele mesmo que ajudou a Ini¬ciar a queda do governo João Goulart, com o protesto dos marinheiros, e que depois seria acusado de ter passado para o outro lado. Ou seja, de ter ficado a serviço da repressão.
Soledad veio parar no Recife em companhia do seu ídolo, que dizia ter treinado guerrilha em Cuba. Logo estava na VPR. Queria ajudar os brasileiros a fazer sua revolução contra o governo militar que perseguia, torturava e malava os inimigos do regime. O livro de Urariano se passa todo no Recife, entre o desfiles de blocos carnavalescos, festinhas, a atuação clandestina da esquerda, a generosa oferta de ar¬mas pelo companheiro “Daniel”, até então um insuspeito colabo¬rador da causa. No romance, no entanto, é difícil distinguir o que é real e o que é ficção. Ficção é o amor do narrador por Soledad, já que Uraríano não chegou a conhecê-la pessoalmente. Dos quinze principais personagens do romance, treze são reais. Os dois outros são uma mistura en¬tre o real e a ficção de acordo com o escritor.
- As coisas mais espantosas do livro são reais - acusa ele.
Cabo Anselmo delatou sua namorada, grávida
Entre elas, a delação feita pelo Cabo Anselmo contra a própria companheira, grávida não se sabe de quantos meses. Pelo me¬nos cinco, diz o autor. Ele re¬constitui como Anselmo se infiltrou no grupo. como os militantes passaram a desconfiar uns dos outros à medida que os companheiros caem, já que "Da¬niel" era um ativista acima de qualquer suspeita. Também des¬monta a versão oficial sobre a chacina contra os seis ativistas. SoIedad foi presa juntamente com Pauline quando estava em uma butique na praia de Boa Viagem, vendendo roupas. Reconheceu o namorado entre os agentes da repressão fitou-o nos olhos e só fez uma pergunta: "por quê?" O ataque a Soledad e sua amiga foi tão feroz que rastros de sangue ficaram na loja. Ela foi vista depois, no Instituto de Medicina Legal do Recife. E Urariano não recorreu à ficção para descrever seu triste fim. Valeu-se do depoimento de Mércia Albuquerque, advogada de pre¬sos políticos em Recife, já fale¬cida, e que descreveu o quadro, "23 anos depois do inferno".
“Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério [...] em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto”. Urariano recorre à ficção para dar sua versão da heroína e mártir. “As santas virgens do Paraguai carregam o filho nos braços e a seus pés têm anjos, às vezes também luas em quartos minguantes. Sangue e feto aos pés, só a guerreira Soledad Barrett Viedma”, escreve. O livro – mais uma vez misturando real e ficcional – traz fotografias, algumas inéditas, de Soledad.
|