“Passei a vida toda compondo a imagem de alguém que eu deveria amar”, afirma filha de Soledad
No livro Soledad no Recife, o escritor pernambucano Urariano Mota afirma que “as santas virgens do Paraguai carregam o filho nos braços e a seus pés têm anjos, às vezes também luas em quartos minguantes. Sangue e feto aos pés, só a guerreira Soledad”. A vida que deixou de existir teria uma irmã. Seu o nome é Ñasaindy Barrett de Araújo. Ela estava presente no lançamento de “Soledad no Recife”, em São Paulo, no dia 29 de julho.
Soledad conheceu o paraibano José Maria em Cuba. Os dois eram revolucionários de grupos diferentes e se casaram. Ñasaindy nasceu em 1969. “Quando eu tinha um ano e pouco, eles fizeram o caminho de volta. Assim que meu pai pisou no Brasil, um ou dois meses depois, ele foi morto. Minha mãe foi para o Chile rever os familiares dela”, conta. A filha de Soledad acredita que, por ter feito outros caminhos no retorno de Cuba, sua mãe viveu por mais tempo.
Bloqueio
Ñasaindi revela ter criado uma barreira em relação a quase tudo o que se relacionava a Soledad, incidindo desde os seus ideais até a sua vida pessoal. “Realmente eu criei um bloqueio, porque era doloroso”, admite. Ela relata que, por muitos anos, assumiu uma postura de afastamento. “Na juventude, eu quis evitar realmente entrar muito em contato com ela, porque eu sentia que se eu entrasse por ali, eu não ia conseguir ter certeza de que os meus ideais eram, de fato, meus. Tinha essa coisa meio egocêntrica, não sei te dizer”, afirma.
“Mas, em algum momento, descobri que os meus ideais também eram os dela. Uma visão voltada para a questão da justiça, não digo especificamente o socialismo. Acho que só agora, com 40 anos, estou realmente começando a ler o que ela lia, tentar entender os ideais marxistas”, conclui.
Quebra-cabeça
Ñasaindy tinha quatro anos quando Soledad foi torturada e assassinada. “Eu acho que eu passei a vida toda compondo a imagem de alguém que eu deveria amar”, diz a filha de Soledad. A obra recém-lançada de Urariano Mota funcionará, para Ñasaindy, como mais um instrumento que resgatará novos elementos para sua memória. “É sempre uma imagem que eu vou compondo. E ela continua sendo feita a duras penas. Tenho cenas muitos tristes na memória. Quando eu mesma estava em Recife, no Instituto Médico Legal [IML], vi os documentos e as fotos dela morta, vi toda a forma como aquela armação foi feita”, relata.
Ñasaindy, numa construção constante da memória de sua mãe, reforça o orgulho que sente da mulher, da revolucionária, Soledad. “Eu sei que ela foi uma pessoa amorosa, sensível; sua força feminina foi muito importante na luta”, conclui. Ñasaindy significa “luz da lua”, em guarani, língua falada pela maioria dos paraguaios.
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