Os Estados Unidos fracassam no Iraque, vêem ruir muito de sua credibilidade, enfrentam dificuldades políticas e econômicas crescentes, têm perdido a capacidade de intervenção unilateral e assistem, inquietos, a um retorno da geopolítica das nações, com focos claros de resistência, nacionalismos e disputas hegemônicas em quase todas as regiões do planeta.
Um espanto. Fim da hegemonia americana? Não. Um não categórico, segundo expressa o cientista político José Luis Fiori no livro O poder global e a nova geopolítica das nações, um lançamento da Boitempo. Na soma dos 50 artigos sobre conjuntura internacional que Fiori reúne - todos publicados nos últimos oito anos em jornais e revistas - resta o balanço de que os Estados Unidos seguem em frente, e de maneira expansiva, com uma estratégia imperial, anterior a eleição de George Bush e reiterada nos programas de todos os candidatos à sucessão americana. Apesar das dificuldades.
Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e respeitado analista internacional, Fiori põe lentes críticas não só sobre essa estratégia, mas sobre as idéias, vindas da esquerda, de que no século 21 estaríamos nos deparando com o fim da hegemonia americana. Trata-se de uma divergência - teórica, não conjuntural, ele trata de esclarecer - com os sociólogos Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein, dois dos mais badalados pensadores de certa esquerda mundial. Ambos sustentam a hipótese de que o sistema mundial moderno requer a existência de potências hegemônicas, capazes de manter a ordem política e o bom funcionamento da economia internacional.
Estados soberanos
Segundo tal teoria, o líder surge na história como uma resposta funcional ao problema da ingovernabilidade do sistema - anárquico por si, uma vez que é formado por Estados nacionais soberanos. Para Fiori, essa teoria não consegue dar conta do movimento contínuo de competição e expansão dos Estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de grandes potências e fazem parte do núcleo central de todo o sistema, mas seguem competindo entre si. Da crítica à teoria, Fiori chega ao conceito de "poder global", o eixo condutor do livro.
Poder global, entenda-se, significa não uma entidade ou uma instância mundial particular, mas o movimento e as contradições que movem o sistema. Esse poder global impede qualquer governança global ou paz perpétua, imaginadas por alguns. Um universo em contínua expansão, que cria, simultaneamente, ordem e desordem, paz e guerra. Se impossibilitou a existência de um império mundial, lembra ele, não impediu a oligopolização do poder e da riqueza internacional nas mãos de um pequeno núcleo de grandes potências.
Desordem e guerra
Na definição de Fiori, o que ordena e estabiliza esse sistema não são os hegemons mas a existência de "eixos conflitivos crônicos" e a possibilidade permanente de guerra. O sistema, escreve, não acumula poder e riqueza sem a competição das nações e não se estabiliza sem as guerras. Desordem, guerras e crises são, portanto, não um anúncio do fim, mas uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial.
A saber. No Oriente Médio, a intervenção no Iraque criou um novo eixo de poder xiita e deu força à pretensão hegemônica regional iraniana. Na Europa, a situação é menos conflitiva mas, segundo Fiori, é "indisfarçável" o aumento da resistência ao unilateralismo americano.
Resistência global
Da América Latina, embora não haja na região nenhuma disputa hegemônica clara entre os seus Estados nacionais, vêm alguns dos principais focos de resistência global, inclusive mostrando uma notável multiplicidade de caminhos - o new deal keynesiano de Kirchner, na Argentina, o capitalismo desenvolvimentista com inclusão social, de Lula, no Brasil, e o "socialismo do século 21", de Chávez, Morales e Correa, na Venezuela, Bolívia e Equador. No Leste Asiático, há uma competição explícita pela hegemonia regional, envolvendo China, Japão e Coréia.
Com evidências extraídas dessas regiões, Fiori afirma que está cada vez mais difícil para os Estados Unidos manterem a ordem e impor suas posições dentro dos territórios periféricos. Mais: foi a estratégia expansiva americana que incentivou, por exemplo, a transformação asiática que hoje lhe escapa ao controle. Sempre com um olho no presente e outro no passado, Fiori faz também suas projeções para o futuro. Uma delas diz que o "centro nevrálgico da nova competição geopolítica mundial envolve pelo menos duas potências", Estados Unidos e China, ambas "cada vez mais complementares do ponto de vista econômico e financeiro" e "indispensáveis para o funcionamento expansivo da economia mundial". Apesar da complementaridade, ressalva, trata-se de uma relação que envolve a preparação permanente para a guerra. Riscos à vista. Sempre.
|