Immanuel Wallerstein, sem dúvida um dos principais autores da ciência da história-mundo, foi alvo de críticas de Edward Said, junto com Braudel e Perry Anderson, devido àquilo que seria a tendência desses autores "evitar a relação entre o imperialismo europeu e seus conhecimentos relacionados", notadamente o Orientalismo. Especificamente, Said diria que "nas premissas metodológicas e na prática da história mundo – ideologicamente antiimperialista – pouca ou nenhuma atenção é dada às práticas culturais, como o Orientalismo ou a etnografia, afiliadas ao imperialismo" (veja "O Orientalismo reconsiderado" de E. Said).
Dialogando ou não com Said (impossível determinar), Wallerstein, em O Universalismo Europeu: a retórica do poder , livro lançado recentemente pela Boitempo, desenvolve sua visão do sistema capitalista no nível, justamente, das idéias que acompanharam e justificaram a sua expansão mundial. Ao fazê-lo, analisa a relação entre o universalismo parcial e distorcido das potências dominantes, que ele chama de Universalismo Europeu, e a relação deste com o Orientalismo; preenche a lacuna apontada por Said, e, mais do que isso, aponta para o problema da superação do Orientalismo, rumo a um "universalismo mais universal".
Na análise de Wallerstein do discurso da dominação, encontra-se que no cerne da relação entre o poder dominador e sua retórica justificadora estaria o que o autor chama de orientalismo em seu sentido amplo: a tendência a essencializar certas características particulares dos "outros", descritos em seus moldes "civilizacionais" (acompanhada, se quisermos, da universalização dos valores das camadas dominantes dos interventores, justificando sua dominação).
Isso ajuda a entender a construção das inúmeras justificativas morais da intervenção, que na prática sempre foi um direito apropriado pelos fortes: a lei natural e o cristianismo no século XVI, a missão civilizadora no século XIX e os direitos humanos e a democracia no final do século XX e início do século XXI. Com efeito, enquanto no século XVI a principal consideração era se o país ou povo era cristão, hoje a principal consideração é se eles são ou não "democráticos". Os argumentos básicos, em todos os casos, são os mesmos: a barbárie dos outros, o fim de práticas que violam os valores universais, a defesa de inocentes em meio aos cruéis e a possibilidade de disseminar valores universais.
Como demonstra Wallerstein nesse livro, a disciplina acadêmica do Orientalismo, especificamente, trouxe versões mais sutis das velhas assertivas do colonialismo espanhol e português. Seus estudos de caso não seriam mais os chamados povos primitivos, mas "civilizações" que, no entanto, não pertenciam ao cristianismo ocidental. O Orientalismo apresentaria a noção de que as "civilizações orientais", apesar de culturalmente ricas e sofisticadas -portanto, em certo sentido, iguais à "civilização cristã ocidental"- continham um defeito pequeno mas importantíssimo: algo que as tornava incapazes de avançar para a "modernidade". A decorrência lógica disso seria a disseminação da idéia de que apenas com a ajuda do mundo ocidental, o Oriente poderia romper os limites que sua própria civilização lhe impusera, cultural e tecnologicamente. A dominação ocidental, não obstante temporária e transitória, seria essencial para o progresso do mundo.
Mas se os valores dos interventores, tidos como universais, não passam de criação social dos estratos dominantes do sistema-mundo específico em que vivemos, então, nas palavras do autor, não há nada tão etnocêntrico, tão particularista quanto a pretensão ao universalismo, o qual teríamos que ultrapassar rumo a uma coisa muito mais difícil de obter: o "universalismo universal" que depende, em primeiro lugar, da recusa das caracterizações essencialistas da realidade social, da capacidade de ver "com olhos extremamente clínicos e bastante céticos todas as justificativas de 'intervenção' dos poderosos contra os fracos". Segundo Wallerstein, estamos em uma época de transição, em que "a luta entre o universalismo europeu e o universalismo universal é a luta ideológica central do mundo contemporâneo e o resultado será fator importantíssimo para determinar como será estruturado o sistema-mundo futuro". Com isso, Wallerstein lança ao leitor o desafio, qual seja, a necessidade de chegar a um ponto de encontro entre o dar e o receber (de percepções, análises, declarações de valor). Em outras palavras, fica a indagação central do livro "é possível ser não-orientalista?".
Arlene Clemesha, historiadora e autora de “Marxismo e Judaísmo”. Traduziu para o português o livro “Freud e os Não-Europeus”, de Edward Said. |