Primeiro movimento armado a se insurgir, entre 1966 e 1967, contra o regime militar brasileiro, a Guerrilha de Caparaó, travada entre Minas e Espírito Santo, continua com sua história por contar. Realizados separadamente, o documentário Caparaó, que estréia sexta-feira no Rio e é dirigido pelo paulista Flavio Frederico, e o livro Caparaó –a primeira guerrilha contra a ditadura, do jornalista capixaba José Caldas da Costa e lançado pela Editora Boitempo, tentam recuperar esse período obscuro da história.
- quando estava filmando o documentário Serra (2003), fui a Caparaó e ouvi falar sobre a guerrilha. Eu me interessei pelo tema e, ao iniciar as pesquisas, cheguei a José Caldas, que estava com o livro pronto – conta Flavio.
José Caldas, autor estreante, lembra que, quando conheceu o cineasta, este tinha entrevistado apenas o ex-sargento e ex-guerrilheiro Araken.
- Passei para ele os contatos dos outros ex-militantes e também uma cópia do meu livro, que ainda não tinha sido lançado. O filme, entretanto, não se baseia nele- diz o autor, que levou 10 anos para concluir suas pesquisas.
A curiosidade do escritor em torno da guerrilha vem da infância. Ele diz que a imagem dos caminhões com soldados do Exército seguindo para a Serra do Caparaó nunca saiu de sua memória, embora em 1967 ele tivesse apenas 7 anos.
- Na época havia os marinheiros no Mato Grosso, os sargentos em Caparaó e a AP (Ação Popular) no Araguaia – enumera, dizendo que Leonel Brizola (1922-2004) negou até o fim sua participação no episódio de Caparaó e que Fidel castro foi o patrocinador do movimento.
Enquanto José Caldas concentrou o filme nos insurgentes, compostos, em sua maior parte, de militares expulsos das forças armadas – entre eles Amadeu Felipe, Gelcy Rodrigues, Araken, Avelino Capitani, Edival Mello, Amaranto, Jorge Silva – o cineasta ouviu também os policiais envolvidos na ação.
- Li mais de 50 livros, mas, como o tempo estava contra mim, resolvi me aprofundar na história dos guerrilheiros – explica Caldas.
Flavio conta que achou importante expor a versão dos militares:
- No livro, o lado “oficial” não faz falta, mas no documentário certamente faria.
Ambos concordam que a maioria dos participantes do movimento teve muita sorte – embora nem todos, como Milton Soares, cuja morte continua não esclarecida.
- Ao serem presos, eles foram imediatamente fotografados. E isso os salvou, já que a foto provava que não haviam sido mortos em combate. Depois, foram parar em um quartel onde o comandante não permitia tortura. Mas o Milton caiu nas mãos do coronel linha-dura Ralph Grunevald Filho – conta Caldas.
Conforme observa Flavio, curioso, e irônico, é que os três mil soldados chegaram quando os 10 remanescentes já haviam sido presos pela PM mineira:
- Ainda assim, os militares permaneceram anos na localidade para evitar influências sobre a população, na época alienada.
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