A história do ex-sargento do Exército, que atualmente mora em Londrina, Amadeu Felipe da Luz Ferreira, foi contada num livro lançado na última sexta-feira em Curitiba. O livro ''Caparaó - A primeira guerrilha contra a ditadura'', do jornalista capixaba José Caldas da Costa, remonta a história de resistência de sargentos das Forças Armadas Brasileiras (FAB) que se rebelaram contra a ditadura militar e tentaram reestabelecer a democracia. Ferreira foi o comandante da guerrilha e foi localizado pelo obstinado jornalista que queria descobrir o que havia visto na infância.
''A minha história de jornalista começou em 1967, quando eu tinha sete anos. Eu morava em Alegre (ES), numa região montanhosa chamada de Pico da Bandeira. Ali nasceu o repórter. Eu segurava a mão de minha mãe quando saíamos da roça para a cidade e vi as tropas passando por mim. Sabia que era algo importante'', relatou Caldas. Foram anos de procura de relatos sobre o que havia acontecido naquele local. Ninguém sabia contar -nem a esquerda, nem a direita. Em 1998, em Curitiba, ele descobriu o primeiro relato que poderia indicar fontes para a descoberta. O livro ''A Repressão no Paraná'' fazia menção do sargento Amadeu Felipe e sua luta pela resistência.
Na época, Amadeu Felipe já moravam em Londrina e tinha trabalhado no governo José Richa. ''Procurei encontrá-lo e o achei na Rua João Cândido, em Londrina. Uma lucidez fantástica, uma memória extraordinária. Ele me deu as dicas de todos que poderia conversar para fazer o trabalho. Visitei dez estados, gravei 100 horas de entrevistas e falei com mais de 20 pessoas'', contou. A história já virou um documentário que chegou a ganhar prêmios no Festival É tudo Verdade e no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. ''Caparaó sai agora da geografia e entra para a história'', disse o jornalista.
Entre agosto e setembro, o livro será também lançado em Londrina -a pedido de Amadeu Felipe. ''Os sargentos resistentes amavam muito o Brasil. Eles entraram para as Forças Armadas porque defendiam o País. Eram nacionalistas. Por isso é que eles resolveram resistir armados'', relatou. A história da guerrilha começa em 1954, com o suicídio de Getúlio Vargas (um dos guardas foi guerrilheiro em Caparaó).
Mas foi em 1961, na Cadeia da Legalidade comandada por Leonel Brizola para evitar o golpe militar e garantir a posse de João Goulart, que os sargentos se uniram e iniciaram a resistência. ''Tive que ler 50 livros para poder me contextualizar com a história falada por cada um dos sargentos entrevistados. A lição que ficou para mim é que a luta sempre vale a pena. Alguém precisa resistir. Graças ao sangue, a luta e o suor derramado naquela época é que conseguimos reestabelecer a democracia'', garantiu o jornalista.
O ex-sargento do Exército Amadeu Felipe da Luz Ferreira, que comandou a resistência em Caparaó, disse que o movimento não nasceu por acaso. Ele era reflexo da indignação dos sargentos do Exército, Aeronáutica e Marinha que não admitiam o golpe militar -feito com o apoio da elite brasileira. ''Nós começamos a nos mobilizar antes mesmo do golpe. Mas foi em 1964 que nos reunimos mais fortemente. Em 64, travou a evolução da história econômica do Brasil. As reformas de base ficaram paradas. Fomos presos, nos foi cerceado o direito a atividade política. Tentamos derrubar a ditadura por todos os meios possíveis e a resistência em Caparaó foi o ápice do nosso movimento'', contou Amadeu Felipe.
A resistência tinha ligação internacional. ''Tínhamos contatos no Uruguai, na Argentina e na Bolívia. A luta era em comum. Queríamos a emancipação da América Latina -que passava por um período de ditadura'', disse o ex-sargento. Amadeu, que hoje tem 72 anos, relata que os quartéis reproduziam a luta de classes no Brasil. De um lado, os sargentos, que pensavam política e ideologicamente como o povo. De outro os oficiais, que queriam manter a ditadura e a dominação.
''Acho que a construção da democracia no Brasil surgiu de todos os movimentos que ocorreram: nosso, dos jovens que deram a vida pelo fim da ditadura militar. Amigos meus foram assassinados vilmente pela ditadura. A violência militar é que apressou sua queda'', analisou.
Amadeu Felipe passou cinco anos preso no Rio de Janeiro. O refúgio dele foi Londrina (PR). Hoje ele tem três filhos e dez netos. ''Tento mostrar a eles o que ocorreu. Naquela época a gente mastigava ferro pelo Brasil. Acho que ainda existe muito para fazer no sentido de democratizar nosso País. Mas estamos no caminho'', previu. |