A efêmera guerrilha de Caparaó não passa de uma nota de rodapé da história contemporânea do Brasil. O que falta em relevância, porém, sobra em aventura- é uma história boa para contar. A essa tarefa entregou-se por vários anos o jornalista capixaba José Caldas da Costa, que, menino ainda, testemunhou a movimentação de soldados ao redor de sua casa, ao pé da serra onde fora montado o foco de resistência armada, na fronteira entre Espírito Santo e Minas Gerais. Intrigado, sem respostas para suas muitas perguntas, Caldas da Costa resolveu reconstruir o episódio. O resultado é o livro Caparaó – A primeira guerrilha contra a ditadura.
A ação se deu nos primórdios da ditadura militar, entre 1966 e o início de 1967, durante o governo de Castello Branco. Vista em retrospecto, a opção pelo enfrentamento militar à ditadura tinha um quê de quixotesco. Além da flagrante desproporção entre as forças em confronto, não se pode esquecer que o golpe que derrubara o presidente João Goulart em 1964 não tivera resistência. Se numa circunstância historicamente justificável a reação armada não ocorreu, por que haveria de se viabilizar posteriormente, quando o novo regime já estava sedimentado?
Não era esse, no entanto, o tipo de raciocínio que prevalecia entre os poucos membros de uma esquerda que, inconformada com o rumo dos acontecimentos, resolveu dar o troco aos militares na mesma moeda.
A embrionária resistência armada tinha em Leonel Brizola a contrapartida civil. Em torno do ex-governador gaúcho, que se encontrava exilado no Uruguai, sargentos e oficiais de outras patentes se aglutinaram. Caldas da Costa fez bem em começar a desenrolar o fio desse novelo a partir de 1961, quando a Cadeia da Legalidade - engendrada por Brizola em defesa da posse de Goulart após a renúncia de Jânio - aproximou os militares que mais tarde tarde subiriam a serra do Caparaó ao político então radical. Desde esse início, nunca foi um um relacionamento tranqüilo, uma vez que, desfeita a cadeia, os sargentos não engoliram a solução parlamentarista.
Caparaó foi uma das três guerrilhas da época que tinham por trás forças lideradas por Brizola. As outras duas, não abordadas pelo autor, estavam localizadas em Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia, e no Maranhão. A de Caparaó nem chegou a ser, a mais importante dessas iniciativas: juntou pouco mais de duas dezenas de guerrilheiros encarapitados no cume uma montanha, envoltos em neblina constante e submetidos a condições precárias (alguns foram vítimas da peste bubônica transmitida pelos ratos da região).
Caparaó nunca teve a menor chance de vingar. Os poucos e despreparados guerrilheiros enfrentaram uma perseguição que envolveu pelo menos 3 mil homens do exército, de acordo com a contabilidade endossada por Caldas da Costa. E, no entanto, não houve derramamento de sangue, algo que seria comum na repressão à guerrilha urbana, pouco tempo depois.
Brizola sempre fugiu do assunto. Chegou a admitir a ajuda cubana, que chamou de "humanitária" (embora envolvesse', dinheiro e treinamento), mas nunca muito além disso. O autor, apesar da insistência, não conseguiu entrevistá-lo. Talvez Brizola nunca tenha acreditado de veradde na opção guerrilheira. Seu empenho é colocado em dúvida até por auxiliares próximos. Caldas da Costa não especula sobre os motivos do político. Em A ditadura envergonhada, Elio Gaspari arrisca uma explicação: “A maneira como foi montada e a facilidade com que foi desmontada a guerrilha de Caparaó indicam que ela tenha sido, para Brizola, mais uma esperança de propaganda – como {o general} Golbery supunha – do que efetivamente uma força insurrecional.”
O livro de Caldas da Costa vale pelos depoimentos de seis guerrilheiros presos em Caparaó. A partir deles a história é reconstituída. O autor, porém, preferiu intercalá-las em trechos ao longo do livro. Não foi uma boa opção. A estrutura prejudica a narrativa e faz com que a perspectiva do autor perca a nitidez. É um relato que servirá mais ao pesquisador do futuro (pela farta matéria-prima) do que ao leitor do presente.
Igualmente grave é o fato de o livro não apresentar uma nova visão para o episódio. As informações novas são relativas a detalhes da ação. Se essa guerrilha fosse desconhecida, contar esta história teria sido suficiente. Mas não é o caso. Há uma bibliografia sobre Caparaó, que se não é extensa, é proporcional a importância que o episódio teve para a história do Brasil. |