Autodescrito como "um intelectual destrutivo", Paulo Arantes não deixou de ser um intelectual marxista. Paulistano, nasceu em 1942, doutorou-se pela Universidade de Paris 10, em 1973, fez carreira como
professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e se aposentou em 1998. Provocou um terremoto na intelligentsia em 2001, com o ensaio "Apagão", publicado na Folha de S.Paulo, em que atacava a adesão dos intelectuais brasileiros ao governo Fernando Henrique Cardoso.
Em 2003, outro artigo, "Beijando a cruz", arrasa
va os adesistas à ortodoxia econômica do governo Lula. Multiplica-se, então, em textos jornalísticos, faz coordenação de coleções para editoras ("Zero à Esquerda" para a Vozes, "Estado de Sítio" para a Boitempo), publica livros como Sentimento da dialética (1992), Um departamento francês de ultramar (1994), Ressentimento da dialética (1996), O fio da meada (1996), Hegel- a ordem do tempo (2000) e Zero à esquerda (2004).
Participou da criação do Partido Socialismo e Liberdade(o PSOL). Publicou recentemente o livro Extinção (Boitempo, 318 págs., R$ 43),com 21 artigos, destacando-se a abordagem das várias formas do imperialismo americano.
Chamamos a atenção do leitor para as evidentes e pertinentes relações entre a entrevista de Paulo Arantes, concedida para Márcia Tiburi, e o dossiê sobre a Nova Esquerda, também publicado neste número de CULT
CULT - O seu último livro refere-se à extinção dos seres humanos, ameaça constante à nossa própria civilização. Uma per
gunta ainda legítima é: quem pode fazer alguma coisa que faça sentido? Há uma tarefa que possa nos levar a outro lugar?
Paulo
Arantes - A rigor, você está querendo que eu lhe diga o que fazer depois do fim do mundo. Nada mais, nada menos do que uma pergunta leninista num cenário adorniano, algo como Brecht esperando Godot. Tanto mais inusitado esse reencontro, se revisto pelo ângulo utópico redescoberto por Slavoj Zizek, no Lênin que nasce das cinzas da catástrofe de 1914, quando, acertando as contas com o evolucionismo da Segunda Internacional, vislumbra naquele naufrágio de todo um mundo da ordem e do progresso a janela aberta para o salto na Revolução. Segundo Zizek, naquele período em que praticamente ficou só, Lênin não teve medo de triunfar, em contraste com o pathos negativo característico de um Theodor Adorno, para o qual só a admissão plena do fracasso lançaria luz sobre a verdade daquela situação terminal. Mesmo assim, não acho a equação impossível, descontado, é claro, o fuso histórico específico de suas duas incógnitas: a luta de classes no auge do imperialismo e a sociedade totalmente administrada pela autoridade imediata do capital. Vistas, no entanto, em retrospecto, à luz do caos sistêmico de agora - as duas épocas e seus respectivos diagnósticos -, podem e devem ser pensadas em continuidade. A guerra total que selou o destino da civilização burguesa se perpetuou no estado de mobilização permanente da era exterminista, que se abriu com a aliança entre o capital, a bomba e o consumo de massa. Não é, portanto, um paradoxo que, com o aparente degelo dos anos 1990, a lógica da desintegração tenha assumido o comando do processo, pois se trata da mesma corrida contra o relógio que Walter Benjamin identificou no âmago da luta de classes. A urgência em desarmar o dispositivo capitalista, de sujeição da vida ao processo produtivo, deriva da autonomização crescente de um aparato econômico e técnico com hora quase calculável para explodir. Como se depreendia então de sinais alarmantes como a hiperinflação e a guerra química recente. Se assim é, nunca houve Era de Ouro alguma no breve século 20 de Eric Hobsbawm. Está claro, porém, que essa recapitulação sob o signo da emergência extrema, se nos habilita a articular a verdade da catástrofe sob a qual vivemos, nem por isso indica a rota de fuga que você me pede para traçar. Aliás, curiosa pergunta, pois nela convivem a demanda por intervenções "do contra", que retardem a derrocada, com a procura de um refúgio onde se abrigar enquanto não se apresenta a macro instância superadora em condições de medir forças com o capital. O mais surpreendente nisso tudo é que esse mesmo capital onipotente também está em fuga. Para variar, está fugindo do seu outro; o trabalho vivo e seu correlato; o estorvo da produção material intercalada entre o dinheiro e ele mesmo; mais dinheiro. Daí o desvio pelo capital fictício, que vem a ser a dominância financeira no atual regime de acumulação, conjugado com a introdução da mercadoria-conhecimento no processo de valorização, e as formas de acumulação primtiva por apropriação direta nos espaços desregulamentados abertos pelas privatizações e deslocalizações. Essas providências, que se qualificam também de saídas de emergência buscadas pelo próprio capital - para não falar nas urgências sociais, alvos de procedimento de mera gestão compensatória -, não deixam de, entretanto, assinalar que os riscos temidos ainda continuam sendo esperados como sempre do mesmo lado, a fonte real da valorização, hoje pulverizada pelos quatro cantos do planeta. Em uma década, essa fuga global não impediu que a massa trabalhadora tenha simplesmente dobrado.
Diante da avalanche de um proletariado informal se espraiando pelas mega-favelas do mundo, qual o sentido dessa esfera microscópica, como você mesmo a dimensiona,
a vida privada encarada como derradeiro baluarte da vida justa, imagino que na acepção antiga do termo? Mesmo vivida despretensiosamente, com a modéstia e a discri
ção de quem não quer se enredar alienando sua independência de letrado, à maneira da resposta humanista de um Cícero acossado
pela crueldade do espetáculo romano, essas novas "tranqüilizações", como se dizia no Baixo Império, parecem caracterizar os virtu ases de uma nova imigração interior, cujas alegações não custam repassar: como as possibilidades de alterar os pressupostos objetivos do atual beco praticamente inexistem, melhor tomar o rumo das condições subjetivas, esclarecendo o distinto público acerca dos riscos de recaída na barbárie, caso se caia na tentação de alguma iniciativa menos anódina de mudança. Melhor resignarse a um mal menor à sociedade realmente existente. Mas por aí esbarramos de novo no contraponto evocado por Zizek: jamais se arriscar sem a garantia de que, dessa vez, a história está do nosso lado. É fato que o desenvolvimento histórico "normal" dava razão aos que achavam que a revolução só explode no seu tempo certo de maturação. Lênin, no entanto, não era bem um alucinado da utopia por decreto, apenas achava que o extraordinário conjunto de circunstâncias da Rússia em 1917 configurava uma exceção em condições de abalar a própria norma
CULT - Nesse contexto da guerra cosmopolita e da miséria crescente que é corolário da guerra, o que dizer do silêncio dos intelectuais transformado em jargão numa campanha que, só podemos crer, é a da "imbecilização planetária", para usar uma expressão de Theodor Adorno, a meu ver, sempre muito atu
al? Esse filósofo também dizia que a "burrice era uma categoria moral". A extinção é também extinção da inteligência? A Filosofia ainda pode alguma coisa diante do que o senhor chama "estado de sítio moral"?
P. A. - O silêncio parece ser decorrência natural do encapsulamen
to que acabamos de comentar. Silêncio oracular, coisa que não falta
nesses profissionais do desengajamento, é o discurso sobre a inibidora ultracomplexidade do mundo, sobretudo a deles próprios. Mas não foi esse silêncio intelectual que esteve na berlinda há dois anos, mas o silêncio obsequioso dos engajados no novo oficialismo de esquerda.
Silêncio paradoxal, aliás, pois nunca se tagarelou tanto sobre as circunstâncias atenuantes da reviravolta em questão. Dois anos depois, inundam as colunas de opinião sobre fatos de sociedade. É o milagre de sempre, a cada crise ou descalabro, as instituições democráticas ressurgem ainda mais fortalecidas. Passa por convergência ao centro algo como uma apoteose do senso comum. Como lembrou certa vez Bento Prado Jr. - cuja falta pesa ainda mais nestas horas em que besteiras brotam ,do fundo da alma -, o senso comum é esse tribunal de última instância, diante do qual devemos pensar exatamente como de fato pensamos. Dele não escapam nem, ou muito menos, os supracitados encaramujados, o precioso ornamento crítico das sociedades hipercomplexas. É preciso notar que essa flagrante extinção da inteligência diz respeito, antes de tudo, à casta dos inteligentes com resposta para tudo. Quanto ao comum dos mortais, a própria engrenagem que os aprisiona, tanto faz se o espetáculo da guerra permanente
ou o tormento do trabalho sob pressão total, encarrega-se de tornar o pensamento dispensável, ou então uma impossibilidade. Quando isso ocorre, esses mesmos mortais, em cujo silêncio ninguém presta atenção, tornam-se ainda mais facilmente descartáveis.
No tempo em que a Filosofia vinha a ser o próprio espírito de contradição organizado, podia sim, aliás, dispensando sua denominação de
origem, romper o círculo desse "estado de sítio moral", cuja certidão de batismo é uma frase de Karl Marx acerca da abdicação da burguesia francesa diante do golpe de Luis Bonaparte, em 1851 . Jean-Paul Sartre o chamou de neurose objetiva, estudando a epidemia de ressentimento nos contemporâneos de Gustave Flaubert, cuja estética antiburguesa justamente se converteu na mais poderosa máquina de guerra no front da estupidez intelectual de que há pouco falávamos. Mas hoje é a própria Filosofia que se encontra em estado de sítio. Incapaz de narrar em grande formato o curso do mundo, encontra-se confi
nada ao círculo íntimo do governo de si e dos outros, integrando assim o gigantesco aparato gestionário dos medos contemporâneos, a começar pelo medo de pensar.
CULT - No mesmo Extinção, no capítulo "O Governo Lula acabou?", o senhor diz
que pressupor que acabou implicaria que tivesse começado. Tal não-começo se deve, segundo sua expressão, à irrelevância da política, à sua extinção. Nesse contexto, o que dizer da corrupção cometida por comunistas ou socialistas ou simplesmente por pessoas de esquerda? É ingênuo pensar na contradição entre lucro (e roubo, desvios e conseqüente assassinato em massa de pobres e miseráveis) e mentalidade comunista? Cobrar "ideologia" hoje é absurdo? Como ser comunista depois de Josef Stálin? Como ser de esquerda depois dos eventos que que transformaram um partido representativocomo o PT em um projeto cancelado? A questão seria continuar confiando na política? Ou, com o seu fim, ficar em casa esperando o país explodir pela TV?
P. A. - Até a corrupção não é mais a mesma. Precisamos de um outro conceito à altura do modus operandi do novo capitalismo, aliás, por ela mesmo turbinado. Como o Estado era patrimônio da oligarquia, corrupção era apenas o patrimonialismo dos outros, um sintoma trivial da degenerescência populista. Depois, finança de mercado em tempo real, privatizações e fusões, parcerias e concessões terceirizáveis etc. acabaram produzindo uma vasta sociedade de compadres, em que já não é mais possível distinguir o oficial do paralelo. O "estado de exceção" também vem a ser justa
mente o modo de gestão desse limbo jurídico onde todos os colarinhos são pardos. A corrupção é, assim, coextensiva de uma inflação normativa tal, que a insegurança jurídica assim produzida pede uma correção suplementar, por meio de derrogação permanente do ordenamento. Isto é: mais atalhos e desvios, por sua vez multiplicadores de pedágios, recomeçando a ciranda dos ilícitos banalizados. Onde se lia hegemonia (e olhe lá), leia-se hoje rackett - em qualquer cenário corporativo, sabe-se que o vencedor leva tudo. Ser ou não ser de esquerda, nisso tudo, é apenas um elemento biográfico a mais entre operadores manipulando uns aos outros. Agora, como ser comunista depois de Stálin? Para começar, lembrando que havia esquerda e comunismo muito antes de Stálin. Simples assim, depois, é claro, de explicar muito bem explicadocomo se deu a fusão entre economia de comando, marxismo de caserna e... Stálin.
CULT - Considerando sua tese sobre o "estado de sítio global" e a questão do
estado de exceção tal como aparece em seus comentários aos pensadores da
política Carl Schmitl e Giorgio Agamben, o senhor vê chance de o Brasil deixar de ser um "campo" onde crescem as "classes torturáveis"? Há futuro para os po
bres e miseráveis nessa sociedade?
P. A. - Desde que nos entendamos acerca da desvalorização do futuro, em curso nas sociedades contemporâneas. Pois é dessa mesma desvalorização e da subseqüente supremacia
conferida a um presente vulnerabilizado por
todo tipo de urgências, que se descortina o
imenso futuro dos pobres no Brasil, bastando para isso que permaneçam pobres. Os programas sociais de massa estão aí para isso: 45 milhões de pobres assistidos significa que vivemos numa outra sociedade, paradoxalmente uma sociedade do desamparo perene, porém "cuidado". A menos que a retomada da longa duração do ciclo da cana os reabsorva num regime de trabalho que sabemos de antemão qual seja. A conclusão do execrável movimento "Cansei!" é um notável acerto sociológico acerca da distribuição de poder numa sociedade cujas anomalias não cessam de surpreender, sendo o tal "Cansei!" a última delas. Hoje no Brasil, as classes dominantes se encontram "dominadas" pelas classes dominadas.
CULT - O que o senhor estará fazendo na próxima eleição para presidente? Desculpe perguntar assim, mas mesmo levando a sério a política no Brasil, poderemos continuar a votar sem vomitar? Como enfrentar essa contradição?
P. A. - Uma outra campanha. Desta vez para "que se vayan todos". Votar, nem pensar. Decididamente, o capitalismo não é uma sociedade de conflitos negociados.
CULT - Ao ler sua entrevista a Beth Néspoli do O Estado de S. Paulo em julho passado, é animador ver sua percepção sobre o fenômeno que atualmente ocorre com o teatro em São Paulo. O senhor pensa que a estética pode ser o cerne de uma revolução política? Gostaria, inclusive, que o senhor enfrentasse o potencial desse termo, se é que ele ainda possui algum.
P. A. - Pois é, a atuação artística e política dos coletivos teatrais em São Paulo não deixa de lembrar que, em tempos de invenção social acelerada, estética antiburguesa e ruptura política correm pela mesma pista. Para voltar ao nosso tópico inicial, com as óbvias ressalvas exigidas pelo caso, a "intuição" leninista acerca da hora e vez da revolução tinha a mesma data histórica do ataque vanguardista ao aparelho artístico instituído. A mesma irrupção utópica visava à destruição do Estado e à liquidação dos monumentos culturais da barbárie. Multiplicando de novo
as ressalvas, no Brasil dos anos 1930, e outra vez no pré-64, ocorreu uma transfusão análoga, ainda que, como no precedente europeu, a precoce ossificação da esquerda tenha banido a experimentação artística do seu campo. Com a esquerda hibernando, hoje a ameaça vem da própria sociedade no seu presente estágio espetacular nem o mais enérgico movimento hip-hop está fora de perigo, et pour cause. Como a paradeira é geral no campo das artes estabelecidas, não espanta que o sopro novo venha desses ambientes de penúria material aguda e abundância de raiva artística acumulada à procura de novas embocaduras sociais.
CULT - O que seria a política após sua extinção? Como sobrevive essa estrutura, ou podemos deixá-Ia de lado como apenas um paraíso perdido de um romantismo sem volta?
P. A. - Nunca será demais recordar que a tese da irrelevância da política foi levantada em primeira mão pela direita. Ao mesmo tempo que operava o consenso econômico a caminho, encaminhava os novos "atores" sociais para longe das instituições políticas que aquele mesmo consenso estava tornando obsoletas, no rumo mais "participativo", por exemplo, da sociedade civil e de seus incontáveis canais de gesticulação cívica. Num segundo momento, a esquerda dos movimentos dourou essa mesmíssima pílula com o vocabulário new look da cidadania etc. Inócuo, como a direita honestamente anunciara. Chegou então a hora de virar o disco e retomar no patamar da agonia presente o paradigma de luta política eclipsada pela novidade momentosa do PT.
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