No livro "Videologias", no capítulo "O Espetáculo como Meio de Subjetivação", Maria Rita Kehl (2004) discute como para Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas a relação social entre as pessoas mediada por imagens. O espetáculo ocupa o lugar do pseudo-sagrado, um sistema de produção de sentido e de "verdade".
"Videologia" se refere a um momento em que tudo concorre para a imagem, para a visibilidade, para o plano do olhar. Os mitos hoje, mais do que em qualquer momento histórico, são mitos olhados.
Não há sociedade que se sustente sem criar a própria mitologia. O mito sustenta as estruturas da sociedade, oferece um conjunto de conceitos indiscutíveis.
Na sociedade do espetáculo, os seres somente são ou vêm a existência se forem dados à visibilidade imediata. Não se trata de um ver qualquer, mas um ver instituído pela mediação tecnológica, econômica e política que define os meios de comunicação, uma mediação que institui o espaço público na sociedade contemporânea.
Maria Rita Kehl define o conceito de "Outro" para a psicanálise, para discutir sobre como seria ocupado o lugar do Outro na sociedade do espetáculo:
"O Outro é uma instância pública, simbólica, todas as figuras que oferecem suporte para sua encarnação imaginária são presenças mediadoras entre a pequenez do sujeito e a imensidão do espaço público, espaço onde se tecem os acordos e se estabelecem as linhas de força que sustentam a vida de uma sociedade. Neste espaço, algumas pessoas se destacam como portadoras de discursos capazes de oferecer, ainda que provisoriamente, sustentação para o laço social. (...) No espaço de ligação entre o espaço público e o privado, na fronteira entre a vida íntima e o poder, o sujeito é tentado a "aparecer", exibir o brilho fálico da imagem, que atesta "eu sou" (porque o Outro me vê). Eis o que não fica explicitado na psicanálise, mas pode ser compreendido em seu corpo teórico: O Outro é sempre, do ponto de vista do sujeito, uma instância de poder, se entendermos por poder aquilo que costura o espaço público, determina lugaresm, ordena as relações entre os homens. O Outro é, para o sujeito, uma instância que antecede, determina e ultrapassa na sua insignificância individual. Existir é, antes de mais nada, apresentar a própria imagem para o Outro." (p. 149-150).
Nas sociedades de massa, faz sentido pensar que o Outro está encarnado nessa produção imaginária da qual a televisão é o principal veículo, onipresente e onisciente como Deus, funcionando para o sujeito como oferta incessante de objetos para o desejo e, portanto como suposição de um saber sobre o nosso desejo.
"É ameaçador que alguém saiba de nós antes de nós, que alguém nos diga quem nós somos, o que nós devemos fazer, antes que tenhamos a possibilidade de criar alguma consistência subjetiva através da experiência com o real, dos tropeços e das cabeçadas que o real nos faz dar". (p. 98)
A suposta onisciência do Outro nos dispensa do trabalho do pensamento, do trabalho de simbolização de nossos embates com o real. Somos dispensados da necessidade de pensar e de simbolizar, dispensados do trabalho que nos constitui como sujeitos do desejo.
"Se o contato com o outro não passa pela reflexão, pela simbolização do outro, há de ser sempre um contato ameaçador e violento". (p. 99)
No artigo "A Publicidade e o Mestre do Gozo", Maria Rita Kehl discute como o apelo da publicidade visa à dinâmica da inclusão e da exclusão, a proposta de uma inclusão do sujeito às custas da exclusão de outros sujeitos.
"Se o Outro é uma instância simbólica para a qual cada sociedade inventa uma versão imaginária, hoje o laço social é organizado com referência a um Outro emissor de imagens que se oferecem à identificação e apelam ao gozo sem limites. (...) O Imperativo de gozo, empresso na mensagem do no limits que identifica uma simples marca de tênis, propõe que cada sujeito, individualmente, alcance para si um lugar acima dos outros (...). A repetição incansável desse tipo de apelo faz-nos perceber a vida social como cada vez mais ameaçadora". (p.5- 6)
No capítulo "Televisão e Violência do Imaginário", Maria Rita Kehl discute é nos dito o tempo todo que não pode haver falta, o que torna a falta ainda mais intolerável. A publicidade seria o principal lugar da voz desse Outro que sabe sobre nosso desejo e nos oferece oportunidade de obturar a falta.
No capítulo "Visibilidade e Espetáculo", Maria Rita Kehl afirma que, na sociedade do espetáculo, já não é mais com a imagem do Outro que o sujeito tenta se identificar, mas com uma espécie de imagem de si mesmo, sem história, sem sofrimento e sem falhas- um suporte para a construção de uma ilusão de identidade.
"o espetáculo demanda o que o sujeito deveria ser para participar dele; ele fornece uma imagem, que se transforma em ideal, para os sujeitos". (p. 159).
Desacostumar-se da subjetividade é a missão da indústria cultural. O espetáculo instrumentaliza o imaginário de modo a tornar a submissão desejável. Enquanto ocupam a posição de espectadores, os sujeitos são dispensados de pensar. A ocupação do tempo livre por meio do binômio diversão/distração não solicita o trabalho do pensamento. O constante apelo ao gozo apaga a dimensão do desejo.
Vivemos numa sociedade que nos demanda uma atividade contínua, ainda que vazia. Somos compelidos a agir ininterruptamente, sem lugar para a reflexão, a contemplação, a dúvida.
Kehl parte do conceito platônico do pensamento como um diálogo: mesmo acontecendo no silêncio, mesmo sendo um exercício que se dá de mim para comigo, o pensamento supõe a presença mental do outro, e se dá em um tipo de laço com o outro em que a falta esteja incluída.
"O pensamento é o diálogo interno que inclui necessariamente o outro- o sujeito que pensa precisa, no mínimo, dar lugar a uma voz que o conteste, ou duvide, daquilo que lhe parece evidente". (p. 147)
Na formação típica da sociedade de massas, os sujeitos não se encontram entre si. Há o vazio do pensamento com a prevalência do imaginário. Isto define a paralisia que estamos vivendo hoje, a predominância do "assim é". Nada nos mobiliza a pensar e ensejar uma possibilidade de mudança.