Foreing Rights


Title: CÃES DE GUARDA [Guard Dogs]
Subtitle: Journalists and Censors, from Institutional Act 5 to the 1988 Constitution
Author: Beatriz Kushnir
Pages: 408
ISBN: 85-7559-044-8
This powerful book reveals how journalists acted as censors during the dictatorship and shows the press’s complicity with the military regime. Kushnir delimits the guidelines of censorship – based on extensive document research and first-time interviews – exploring the tenuous lines between the act of censorship, self-censorship and collaboration. A fundamental work. Nominated for the 2005 Jabuti Prize.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Blog Vi o Mundo
Data: 2008-02-18
Autor: Luiz Carlos Azenha
Comentário Boitempo:
Título: Beatriz Kushnir: o livro que a mídia fez que não viu
Matéria:
Beatriz Kushnir escreveu um livro "incômodo" para a mídia brasileira. É "Cães de Guarda - Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988", que conta histórias interessantes sobre os bastidores de jornais e emissoras de televisão durante o regime militar.

Fala do funcionário que Victor Civita despachou para "treinar" censores em Brasília. Fala dos censores que foram trabalhar dentro da TV Globo. Fala dos policiais que se tornaram "jornalistas" e dos jornalistas que fizeram papel de policiais. Fala dos bastidores da "Folha da Tarde", o jornal do grupo Folha que prestou serviços à repressão.

Está explicado, portanto, o motivo pelo qual esse livro quase não foi resenhado. Beatriz hoje é diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que tem um dos maiores acervos da imprensa alternativa que floresceu durante o regime militar.

Ouça aqui a entrevista de Beatriz Kushnir a Luiz Carlos Azenha
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Site Vermelho
Data: 2008-02-20
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: O livro que denunciou jornalistas e veículos pró-ditadura
Matéria:
Beatriz Kushnir escreveu um livro "incômodo" para a mídia brasileira. É a edição de sua tese de doutorado, Cães de Guarda - Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo). Revela a postura colaboracionista de jornalistas e órgãos de imprensa durante a ditadura militar. Está explicado, portanto, o motivo pelo qual esse livro quase não foi resenhado.

Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense, Beatriz Kushnir hoje é diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que tem um dos maiores acervos da imprensa alternativa que floresceu durante o regime militar. A tese que gerou o livro já foi defendida - com sucesso - no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para realizar seu trabalho acadêmico, ela privilegiou o período do AI-5 à Constituição de 1988, mas recuou a março de 64 e à legislação censória no período republicano. O alvo foi para os jornalistas de formação e atuação, que trocaram as redações pela burocracia e fizeram parte do DCDP (Departamento de Censura de Diversões Públicas), órgão subordinado ao Ministério da Justiça, cargo de Técnicos de Censura.

Outro foco da pesquisa foram os policiais de carreira que atuaram como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e censor do pós-64. Para encontrar esse grupo, Beatriz pesquisou a trajetória do jornal Folha da Tarde (FT), do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Ela teve acesso ao Banco de Dados da Folha, ao Dedoc da Editora Abril, aos arquivos pessoais do jornalista José Silveira (Jornal do Brasil) e da jornalista Ana Maria Machado (Rádio JB).

Foram entrevistados 19 jornalistas que passaram pela FT, 11 censores (só dois autorizaram a divulgação de seus nomes) e um grupo de 26 jornalistas, entre eles Bernardo Kucinski, Mino Carta e Jorge Miranda Jordão. Feita a apuração, Beatriz deixa claro que não apenas existia uma a estreita relação naquele período entre jornalistas e policiais. Também havia uma linha de estratagemas da direção das empresas de comunicação, ao aceitarem praticar a autocensura, como "sugeria" o governo militar.

Nesse sentido, Cães de Guarda conta histórias interessantes sobre os bastidores de jornais e emissoras de televisão. Fala do funcionário que Victor Civita despachou para "treinar" censores em Brasília. Fala dos censores que foram trabalhar dentro da TV Globo. Fala dos policiais que se tornaram "jornalistas" e dos jornalistas que fizeram papel de policiais. Fala dos bastidores da Folha da Tarde, o jornal do grupo Folha que prestou serviços à repressão.

Os casos mais explícitos

O relato sobre jornalistas-policiais é particularmente interessante. A autora demonstra como esses profissionais - escrevendo nos jornais ou riscando o que não poderia ser dito ou impresso - colaboraram com o sistema autoritário. "Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio."

A historiadora conta, em uma passagem da tese, que os dez primeiros censores que estiveram em Brasília, quando da mudança da capital, eram jornalistas. Eram profissionais que foram transferidos para as redações de Brasília - e lá acumularam cargos na burocracia do Estado, situação comum à época. Mas eles preferiram ficar com apenas uma atividade.

Assim, dez jornalistas optaram pelo trabalho no Departamento de Censura, onde se ganhava mais. Dois deles escreveram um livro explicando aos censores como se deve censurar e quais os artigos que se deve cortar.

Um dos episódios destacados pela tese de Beatriz Kushnir narra a trajetória da Folha da Tarde. Segundo a tese, o jornal foi o reduto, entre 1967 e 1984, de um grupo de jornalistas colaboracionistas - os chamados "cães de guarda" -, que dirigiram a redação como uma delegacia de polícia.

Na época, a FT era chamada no meio jornalístico como o jornal de maior "tiragem", uma ironia à grande presença de 'tiras' na redação. Durante uma década e meia, o jornal ficou sob o comando da direita, e muitos dos seus jornalistas tinham cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Alguns fatos marcaram a redação. A prisão de Frei Betto, em 11 de novembro de 1969, foi minimizada pelo jornal, que não citou uma importante passagem em sua biografia: Frei Betto foi chefe de reportagem da Folha da Tarde. No episódio Vladimir Herzog, assassinado nos porões da Oban (Operação Bandeirante) em 25 de outubro de 1975, a FT ignorou por completo a missa ecumênica realizada na Catedral da Sé, alguns dias depois da sua morte.

Os "gansos"

Outra prática, que se estendeu a outros órgãos de imprensa, mas ganhou exemplaridade na FT, foi a de transmitir integralmente a versão do Estado para desaparecimentos e assassinatos. Caso de uma manchete de abril de 1971 que anunciava a morte do guerrilheiro Roque, em confronto com a polícia de São Paulo.

Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, que havia sido preso com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da Oban. Foram presos e torturados.

Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um "volta" fora da Oban e leu em uma banca de jornal a notícia da morte do pai. Quando voltou do "passeio", ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão, mas a Folha da Tarde havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes. Muitos atribuem à FT a legalização de mortes em tortura.

Além do caso FT, a tese mostra como redações, entre 1972 e 1975, "acatavam" os bilhetinhos do Sigab (Serviço de Informação do Gabinete), que notificavam diariamente os jornais sobre o que se podia e o que não se podia publicar. É o professor Bernardo Kucinski que lembra: "A maior parte da grande imprensa brasileira aceitou, ou se submeteu a esse pacto. Para Médici, era melhor que o próprio jornalista se autocensurasse".

As empresas escolheram seus "quadros de confiança". Por abrigar jornalistas colaboracionistas, algumas redações ficaram conhecidas como "ninhos de gansos". Os jornalistas de confiança que cobriam o Deops, por exemplo, não passavam pela revista e seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada "passagem dos gansos".

"Quem tem mais culpa? É o dono do jornal, é o jornalista? São circunstâncias que se dialogam", comenta Beatriz Kushnir, em entrevista ao jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. "Esse termo do colaboracionismo é um termo que dói de ouvir. Isso reflete muito do país, da formação, dos processos econômicos."

Fontes: blog Vi o Mundo e jornal Unidade
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Conversa Afiada
Data: 2008-04-26
Autor: Paulo Henrique Amorim
Comentário Boitempo:
Título: Máximas e Mínimas 1093
Matéria:
Instigado pelo Azenha acabei de ler o excelente livro “Cães de Guarda – jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988”, de Beatriz Kushnir, Boitempo Editorial, que trata das relações especiais da Folha (e a Folha da Tarde) com a repressão dos anos militares.

Octavio Frias Filho, publisher da Folha (da Tarde), não quis dar entrevista a Kushnir.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Imprensa
Data: 2008-05-01
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Censura
Matéria: Quase sempre a censura é apenas um capítulo da historiografia destinada a registrar os anos da Ditadura Militar no Brasil. Ela era a face voltada para o jornalismo e para os jornalistas, militantes ou não, depois do golpe de 1964, e, em especial, após a instauração do Ato Inconstitucional n.º 5. Esse livro recupera e amplia o debate sobre a censura, lançando luz sobre aspectos até então obscuros, como a sujeição da Folha da Tarde às regras impostas pelo militares, o que levou a chamarem o jornal de “Diário Oficial da Oban” (Operação Bandeirantes). Ao dar voz tanto a jornalistas quanto a censores, a historiadora permite uma leitura menos comprometida com aspectos ideológicos, embora retrate o incômodo causado pelos regimes de opressão à livre expressão do pensamento.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Site do Centro de Estudios de la Mujer en la Historia
Data: 2008-06-01
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Cães de guarda
Matéria:
Investigación de las relaciones entre periodistas y censores después de 40 años del golpe civil-militar de 1964, este libro recoge uno de los aspectos fundamentales del régimen: su relación con los órganos de prensa, censura y colaboración. “El objetivo es iluminar un territorio sombrío e incómodo: la existencia de periodistas que fueron censores y también policías mientras ejercían una función de periodistas en las redacciones”, explica Beatriz en la introducción del libro. La investigadora explora la formación, las bases jurídicas y las directrices que orientaban la censura, basándose en una extensa y profunda investigación documental, al margen de entrevistas, incluso a once censores – aspecto inédito del libro – cuya función era “filtrarse” en la prensa que incomodaba al régimen no solo en el campo político sino también en las expresiones culturales. Verdaderos “guardianes”, de “la moral y las buenas costumbres”.

Otro aspecto del trabajo es la complicidad de la prensa, especialmente de la Folha da Tarde – donde trabajaban varios militantes de la izquierda. Después de diciembre de 1968, fue conocido como Diario Oficial da Oban (Operación Bandeirantes), de mayor tiraje por el número de policías que ejercían el oficio de periodistas. El libro toca también un tema delicado, la colaboración, e igualmente critica una historiografía que al analizar la historia de la prensa evita el caso de la Folha da Tarde.

Explora los limites (tenues) que separan el acto de censura y la autocensura de los periodistas en una compleja convivencia entre el Estado y la prensa durante la dictadura civil-militar.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Jornal do Brasil online
Data: 2004-03-20
Autor: Paula Barcellos
Comentário Boitempo:
Título: Nova versão das relações entre jornalistas e a censura
Matéria: Pesquisadora denuncia o apoio à repressão durante a ditadura

Quando defendeu sua tese de doutorado em História, na Unicamp, em 2001, a atual coordenadora da rede municipal de teatros do Rio, Beatriz Kushnir, despertou a curiosidade, a fúria e os aplausos de muitos jornalistas que estavam em plena atividade durante o regime militar. Com o título Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 - agora publicado pela Boitempo (408 páginas, sem preço definido) -, Beatriz trouxe à tona uma face do jornalismo, que na maioria das vezes costuma ser mascarada: sua colaboração com o Estado nos anos de repressão. Para chegar a essa constatação, a historiadora inverteu a estratégia do jogo: em vez de partir dos jornalistas para chegar aos censores, foi aos censores para chegar aos jornalistas. Daí, surgiu uma surpresa: os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas, no período estudado por Beatriz, eram jornalistas.

- O objetivo é iluminar um território sombrio e desconfortável: a existência de jornalistas que, ainda nas redações, foram censores federais e policiais - conta.

Um dos entrevistados para a pesquisa foi o jornalista Antônio Aggio Jr., que, no período da censura, trabalhava na Folha da Tarde. Apesar de, a princípio, Aggio ajudar Beatriz em sua tese, ele não poupou críticas ao ler o trabalho pronto: ''Para alicerçar sua tese na parte relativa à Folha da Tarde, Beatriz vale-se de um argumento mentiroso e calunioso. Estou providenciando sua responsabilização perante a justiça'', disparou em seu artigo publicado no site do Observatório da Imprensa. Polêmicas a parte, a historiadora Beatriz Kushnir, com sua ousada publicação, está contribuindo para uma releitura crítica dos 40 anos do golpe militar.

Ao contrário da maioria dos estudos sobre a imprensa durante a ditadura militar, em que o enfoque é a forma pela qual os jornalistas reagiram à censura, na sua tese você faz o caminho inverso: parte dos censores para chegar aos jornalistas. O que levou a essa opção?
Ao iniciar minhas pesquisas de doutoramento em História, na Unicamp, financiada pela Fapesp, fiquei surpresa ao constatar que os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), quando da transferência da capital federal para Brasília, eram jornalistas. E todo pesquisador sabe que um ''achado'' ocorre quando uma constatação foge às regras que havíamos apreendido como ''conhecidas''. Mas tal ''descoberta'', como outras que o livro aponta, não são facilmente assimiláveis por uma memória política que estabeleceu para o país um outro patamar, muitas vezes distante do percorrido pelo regime civil-militar do pós-1964, por exemplo. Tentando compreender esse achado, verifiquei que os editais dos concursos públicos para censor federal, quando traçavam o perfil do candidato, admitiam uma única atividade concomitante: ser jornalista. Esse fato aguçou ainda mais a minha curiosidade. Até porque, creio ser importante, em um trabalho na área das Ciências Sociais, podermos remar contra a maré e trazermos à tona ponderações e perspectivas inovadoras, olhares que revelem, desvendem. Esses nos obrigam a rearrumar o tabuleiro do jogo. E isso, para mim, é fundamental.

Como você explica o fato de alguns profissionais da imprensa colaborarem com a repressão?
É preciso compreender, por um lado, a instabilidade profissional dos homens e mulheres de jornal e a necessidade que tinham de outros empregos, muitas vezes públicos, que garantir a sobrevivência. Estar no aparelho de Estado ou ser empregado num jornal, uma empresa, confere regras, e isso é uma constatação que não pode ser desprezada. A República brasileira é também um período de longas intervenções ditatoriais. Temos mais momentos de exceção do que de democracia. A censura aos jornais, portanto, não se iniciou no pós-1964, ou no pós-1968. Ela esteve presente na República Velha, no Estado Novo e também em períodos tidos como democráticos. Gosto muito de uma frase do Millôr, no famoso número 300 do Pasquim, quando os censores deixam a redação. Ele diz: ''Sem censura não quer dizer com liberdade''. Quantos de nós fomos educados para viver ''com liberdade''?

Como tal colaboração com a ditadura refletiu na sociedade?
O ato de colaborar com a ditadura nos impõe refletir, criticamente, a idéia da sociedade brasileira como ''democrática por natureza'', e para tal são muito oportunas as ponderações feitas por Daniel Aarão Reis Filho acerca do processo de anistia e de oposição ao regime civil-militar. Durante esse período, meio ''fim de festa'', parcelas da sociedade brasileira buscaram se divorciar da ditadura, optando por manifestações tidas como de esquerda. Desejavam demarcar as ''fundas e autênticas raízes históricas'' do país. Para eles, a ditadura era um passado e um pesadelo momentâneo, que precisava ser exorcizado. Como demônios e fenômenos externos, a idéia era que a sociedade não tinha, e nunca teve, nada a ver com a ditadura. Ficam, então, questões difíceis de responder: por que a ditadura durou tanto tempo e não foi simplesmente repudiada? E por que foi aprovada uma anistia recíproca?

Você se decepcionou com a imprensa?
Não sei se decepção é o termo mais correto. Creio que hoje compreendo que a imprensa é uma empresa de cunho privado que vende um serviço de utilidade pública. Mas, como destacou Cláudio Abramo, o jornal tem um dono e nele só sai o que o patrão quer. Tendo isso em mente, passa-se a ler, de forma mais realista, o que está impresso. Sabendo sempre que, no dia seguinte, o papel do jornal vai embrulhar peixe nas feiras. Mas o que nele está impresso pode ter mudado vidas de modo radical. Algo é fundamental não se perder: quem o compra deposita neste ato um pacto de confiabilidade no que está escrito. Quebrar esse acordo gera uma ambigüidade na apreensão do real que permite um sem-número de considerações. Assim, muitos pagaram pelo papel-jornal para saberem o que se passava nos seus mundos. Outros sofreram com o que estava impresso nessas páginas.

Dessa forma, o jornalismo acaba sendo fonte da história. Então, como se dá a relação entre imprensa e história, jornalista e historiador?
Os historiadores que vêm trabalhando com o contemporâneo fazem o que se denominou ''história do tempo presente''. No encontro de jornalistas e outros intelectuais para uma atuação política, abriu-se um espaço que flexibilizou lugares e atuações profissionais. Não se contentando em registrar apenas os ecos da atualidade, os jornalistas buscaram um olhar crítico sobre o material produzido, exercitando-se em uma história do imediato. Esse encontro, esperamos, deve se dar para além das disputas, respeitando as especificidades de cada oficio. Assim, não devemos cair na armadilha que amarra o historiador às considerações para a posteridade, enquanto o jornalista buscaria vencer a angústia do esquecimento a cada jornal que no dia seguinte está no lixo. O grande encontro possível desses sujeitos das letras permite que o tempo presente seja uma não-história do instante. E nada mais importante do que a narrativa jornalística e a reflexão histórica sobre um período, por diversos ângulos, para que isto possa acontecer.

Logo após a defesa da sua tese, em 2001, parte da imprensa reagiu muito mal, inclusive jornalistas que você entrevistou para o trabalho. Antônio Aggio Jr. chegou a afirmar que sua tese seria mentirosa e sensacionalista. Como justifica essa reação?
Durante as reflexões sobre os 30 anos do AI-5, em 1998, o jornalista Jânio de Freitas fez uma análise, em meu juízo, extremamente reveladora, comentando que muitos dos jornalistas que estavam nas redações em 1968 ainda lá permaneciam em 1998. Assim, como o panorama mudou, discursos sobre trajetórias também querem se adaptar a esses ''novos momentos''. Isto porque muitos servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre. Um retrato que exponha e desfoque esse esforço de adaptação nunca poderá ser bem aceito.

De certa maneira, reações como a de Aggio não seriam também uma forma de censura?
Sinceramente, prefiro não polemizar. Meu trabalho se pretende muito mais amplo do que se debruçar apenas sobre trajetórias individuais. Não quero que um esforço de cinco anos e meio, extremamente rico para mim, seja perdido e apague o empenho de repensar as outras possibilidades de apreender a relação imprensa/Estado.

Passados 40 anos do golpe militar, como você analisa a imprensa hoje? Ainda persiste algum tipo de censura?
A censura, travestida de defesa da moral e dos bons costumes, é para mim sempre política, e se calca, para efetivar suas ações, em pressões econômicas. Por ser uma empresa privada que visa o lucro, o órgão de imprensa tende a perder suas funções básicas: fiscalizar o poder, buscar a verdade dos fatos e fomentar o espírito crítico. Atualmente, temos acesso a muita informação, às vezes em excesso e sem proveito, mas adquirir conhecimento é parte de outro procedimento. Talvez a censura contemporânea seja essa enxurrada de dados e a ausência de conteúdo.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Diário do Pará
Data: 2004-05-07
Autor: Elias Ribeiro Pinto
Comentário Boitempo:
Título: O jornal de maior tiragem do país
Matéria: Na coluna de ontem, "Olheiros do SNI na UFPA", falei da espionagem em torno dos supostos subversivos que agiam no campus do Guamá. Isso nos anos 70. Mas, ao final do texto, lembrei que as redações jornalísticas também abrigavam colaboradores do regime militar.

No tempo da Censura Federal havia, evidentemente, os censores, mas estes contavam ainda com a disseminação da censura prévia, da autocensura. Imagina-se, em geral, que os jornalistas formavam um bloco de resistência contra a ditadura e que alguns chegaram a lutar, pegar em armas. Não foi bem assim.

As redações conviviam com um clima de desconfiança e dissimulação: o delator podia estar escrevendo na máquina ao lado. Houve casos de jornalistas que foram censores federais e, como policiais, exerciam a função de jornalistas nas redações. Tivemos, em Belém, exemplos desse colaboracionismo. Só não vou, agora, inverter o jogo e fazer o papel de dedo-duro. Mas um estudo acadêmico de qualidade sobre esse episódio de censura e colaboracionismo entre nós valeria a pena. Fica a sugestão às teses de cursos de comunicação.

Nada que se comparasse, em São Paulo, ao caso da Folha da Tarde, "o jornal de maior tiragem do país", não exatamente pela circulação, vendagem, até modesta se confrontada aos principais jornais. A frase alude ao número de "tiras" que trabalhavam no jornal, exercendo, inclusive, cargos de chefia.

A Folha da Tarde pertencia à empresa Folha da Manhã, que ainda possuía a Folha da Manhã e a Folha da Noite, com três edições diárias. No início da década de 60, os três jornais foram reunidos num só, que recebeu o nome de Folha de S. Paulo, este mesmo de hoje.

A Folha da Tarde ganhou uma sobrevida e renasceu em 1967, para disputar mercado com o Jornal da Tarde, lançado pela família Mesquita, dona do tradicional O Estado de S. Paulo. Tendo como paralelo, como espelho, o Jornal da Tarde, sob a batuta de Mino Carta, a Folha da Tarde, no início, até que tentou manter uma linha política "neutra".

Enquanto O Estado de S. Paulo preenchia as lacunas das matérias vetadas pela censura com trechos de Os Lusíadas (mas o primeiro poema publicado foi o I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias), o novo jornal vespertino dos Mesquita apelava para as receitas de bolo para ocupar os espaços das matérias cortadas.

Boa parte dos leitores, no entanto, nem percebia que os jornais estavam sob censura. Houve quem escrevesse protestando contra as receitas de bolo, que não davam certo. O próprio Estadão, antes de publicar poemas, recorreu a anúncios do tipo "agora é samba", e recebeu cartas de apoio à iniciativa cultural.

Se o Jornal da Tarde era considerado mais à esquerda, ou menos à direita, dependendo do ponto de vista, a Folha da Tarde, emulada pelo concorrente, queria ser, conforme o primeiro editorial do renascimento, "um vespertino moderno, atual, jovem e, principalmente, livre". Mas aí veio a roda repressora do AI-5 e moeu as boas intenções.

A partir de então, com sua redação completamente reformulada, o jornal passou a ter uma péssima fama. A Folha da Tarde tornou-se um exemplo claro do colaboracionismo de parte da imprensa com o poder autoritário no pós AI-5. Em seu livro A Regra do Jogo, Cláudio Abramo, que iniciou o famoso "Projeto Folha", registra que "foi nessa época que se formou o núcleo policial da Agência Folha, composto por remanescentes do grupo que estava na Folha quando fui para lá, em 1965. Esse pessoal mais tarde passaria para a Folha da Tarde, transformando-a no jornal mais sórdido do país".

A Folha da Tarde foi, para muitos, um porta-voz, o diário oficial da Oban, ao reproduzir informes do governo como se fossem reportagens feitas pelo próprio jornal. A Oban (Operação Bandeirantes) era uma organização paramilitar que combatia a luta armada. Criada em 1969, foi sustentada por contribuições de empresários e funcionou como uma espécie de inteligência policial, integrada por civis e militares. Muitos de seus membros foram acusados de torturar presos políticos. Colhi as informações sobre a Folha da Tarde numa das minhas leituras atuais, Cães de Guarda (Boitempo Editorial), de Beatriz Kushnir, livro que, em breve, volto a comentar.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Jornal da Usp
Data: 2004-03-31
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Jornalistas que disseram sim
Matéria: A relação dos órgãos de imprensa com o regime militar é mostrada no livro Cães de guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 408 págs). Contudo, em vez de tratar da imprensa alternativa, ele lembra os jornalistas que colaboraram com a ditadura, seja como censores federais, seja através da auto-censura. A autora Beatriz Kushnir entrevistou 11 censores e explica, na edição, as diretrizes que orientavam o trabalho da censura. Ela ainda analisa o caso da Folha da Tarde, que depois de 1968 abrigou vários policiais exercendo o papel de jornalistas.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Globo
Data: 2005-01-01
Autor: João Batista de Abreu
Comentário Boitempo:
Título: Beatriz Kushnir põe o dedo em feridas ainda abertas ao analisar as relações entre jornais e o regime militar
Matéria: Obra promove um mergulho nos porões da imprensa

Um episódio nunca me saiu da memória. Aos 18 anos, estagiário há apenas três semanas na reportagem policial do “Diário de Notícias”, recebo a missão de cobrir o julgamento de um padre enquadrado na Lei de Segurança Nacional sob a acusação de incitar moradores de uma favela a se rebelar contra uma ordem de remoção. Surpreso, pergunto ao chefe de reportagem por que o padre agira daquela forma. A resposta vem com a convicção que só certos chefes costumam demonstrar: “Ora, porque é comunista”.

O ano é 1972 e o general que comanda a presidência, Garrastazu Médici. Tempos obscuros que a História tem-se esforçado para devolver à memória nacional. “Cães de guarda — Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988”, da historiadora Beatriz Kushnir, realiza um mergulho neste passado recente, recuperando nomes, episódios, decretos e desenterrando espíritos que gostariam de continuar no limbo do esquecimento.

O livro de Beatriz, extraído de sua tese de doutorado em História na Universidade de Campinas (Unicamp), esmiúça a ação de jornais e jornalistas em cargos de chefia e o envolvimento de empresários com o regime militar. Põe o dedo em feridas que permanecem abertas e, por isso, causa desconforto a muita gente. Incomoda como os historiadores franceses que pesquisam o comportamento dos colaboracionistas na França ocupada pelos nazistas. Lá como cá, os manuais de boa conduta recomendam que se enalteça a bravura dos maquis na luta de resistência.

A autora se propõe a descer aos porões da consciência profissional de jornalistas e empresários de comunicação. Analisa matérias e editoriais do tablóide vespertino “Folha da Tarde”, do grupo “Folha da Manhã”, e o envolvimento de alguns de seus diretores com a Operação Bandeirantes (Oban), grupo paramilitar que participava da repressão à luta armada. Entrevista censores e mostra a rotina de trabalho desses servidores públicos. Lembra o concurso público realizado para censor, em 1977, que atraiu cinco mil candidatos. A demanda foi tamanha que a sempre atenta Faculdade Estácio de Sá abriu um curso preparatório, no Rio de Janeiro, para os candidatos a censor. As relações entre os secretários de redação e os portadores de tesoura e caneta vermelha assumiam um tom cordial e, às vezes, descambavam para lances prosaicos. “Assim vou perder meu emprego”, argumentou certa vez a censora Marina de Almeida Brum Duarte aos editores de “O Pasquim”, um dos semanários sob censura prévia.

O fato de ser historiadora facilita a investigação, embora por vezes a narrativa se abstenha de esclarecer que nem todas as pessoas citadas tomavam parte naquele imbroglio político. Os documentos contidos no livro ensinam às novas gerações que segmentos significativos da classe média apoiaram o golpe e boa parte da ditadura.

Após o mergulho nesses tempos sombrios, Beatriz tira suas conclusões sobre os profissionais da “Folha da Tarde”: “Os homens e mulheres que lá trabalharam (...) viveram a força do arbítrio não só nas prisões e mortes relatadas mas também naquelas sentidas na própria pele. Muitos também fizeram um pacto com os agentes da repressão. A trajetória da ‘Folha da Tarde’ espelha tanto as rupturas e mudanças no panorama brasileiro, como os caminhos percorridos pelo Grupo Folha da Manhã para se adaptar aos percalços e às efervescências políticas daquele período”.

A análise poderia servir para a maioria dos grandes jornais brasileiros que se mantiveram em silêncio durante o regime militar. Há uma frase conhecida no meio jornalístico segundo a qual um jornal começa a morrer dez anos antes de seu fechamento. No caso da “Folha da Tarde”, visto nos anos 70 como o “Diário Oficial da Operação Bandeirantes”, nas palavras do veterano repórter Percival de Souza, é curioso que as rotativas tenham parado de rodá-lo em 1999, exatos 20 anos após a Lei de Anistia e dez anos depois da primeira eleição direta para presidente da República desde o golpe de 1º de abril de 1964. A esperança é de que aquele raciocínio simplista do chefe de reportagem dos anos 70 tenha ficado sepultado de uma vez por todas, não apenas para explicar ações de “grupos comunistas” da época, mas para entender as rivalidades políticas e ideológicas que dividem o mundo no limiar do século XXI.

João Batista de Abreu é jornalista, sociólogo e professor-adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Site Vermelho
Data: 2009-04-22
Autor: André Cintra
Comentário Boitempo:
Título: Beatriz Kushnir: a estreita união entre imprensa e ditadura
Matéria:
O conjunto da grande mídia ignorou o lançamento de Cães de Guarda — Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo Editorial, 2004). Não era para menos. O livro da historiadora Beatriz Kushnir tocava num dos pontos mais nebulosos da história do Brasil — a relação colaboracionista entre a imprensa e o regime militar (1964-1985). Em entrevista por e-mail ao Vermelho, Beatriz conta a gênese e as descobertas de Cães de Guarda, com destaque para o engajado apoio da Folha da Tarde à ditadura.

A Boitempo encaminhou Cães de Guarda a muitos jornalistas que solicitaram exemplares — inclusive profissionais da Folha de S.Paulo. Quase nada, porém, foi publicado sobre o livro. A que você atribui tamanho veto?
Os jornais são empresas de comunicação — estruturas privadas que vendem um bem público: a notícia. Mas nelas só sai o que o dono quer, como dizia o jornalista Cláudio Abramo.

Sobre o tema da censura à imprensa durante o regime militar, já existem dezenas de trabalhos acadêmicos que viraram livros. O que Cães de Guarda acrescenta a esses estudos? Quais foram as principais descobertas e conclusões de sua pesquisa?
O diferencial é que o livro trabalha com uma documentação interna. Localizei o acervo do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), bem como o material da Academia Nacional de Polícia, que treinava os censores. O estudo focaliza a relação dos jornalistas com os censores no Brasil, durante a República e em especial de 1968 a 1988.
Busca-se demonstrar a existência de jornalistas que foram censores federais — e que também foram policiais enquanto jornalistas nas redações. Escrevendo nos jornais, ou riscando o que não poderia ser dito ou impresso, colaboraram com o sistema autoritário daquele período. Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio.
Recuo a março de 64 e à legislação censória no período republicano, como por vezes retorno ao início do século 20, demonstrando mais continuidades do que rupturas nesta relação. Centrei a reflexão nos jornalistas de formação e atuação, que trocaram as redações pela burocracia e fizeram parte do DCDP, órgão subordinado ao Ministério da Justiça, cargo de Técnicos de Censura.

Há uma diferença nada desprezível entre apoiar um regime ditatorial e colaborar com ele. Ciente disso, você afirma que a maioria da grande imprensa não só apoiou (o que é público e notório) como também colaborou (o que, por sua vez, não é tão disseminado). De que forma se deu esse vínculo?
Se muitos dos censores eram jornalistas, em uma parte da grande imprensa, no período pós-1968, havia jornalistas que eram policiais. Neste sentido, trata-se de mapear uma experiência de colaboracionismo de uma parcela da imprensa com os órgãos de repressão no pós-AI-5. Tem-se como mote a atuação de alguns setores das comunicações do país e suas estreitas (permissivas) conexões com a ditadura civil-militar do pós-1964.
Além de não fazer frente ao regime e às suas formas violentas de ação, parte da imprensa também apoiou a barbárie. Utilizo esse termo, colaboracionismo, porque compreendo as atitudes tomadas como algo mais que uma adesão aos pressupostos do pós-1964 e principalmente do pós-1968. Além de apoio, também é compromisso — por isso colaborar tornou-se mais acertado do que aderir. Não dá para se eximir. Quem tem mais culpa? É o dono do jornal, é o jornalista? São circunstâncias que se dialogam.
Não estou dizendo que todo jornalista exerceu um papel de colaboração, nem que todas as empresas de jornalismo foram colaboracionistas. Analisei o caso específico de um grande jornal, mas você pode estender para outros casos. Esse termo do colaboracionismo é um termo que dói de ouvir. Isso reflete muito do país, da formação, dos processos econômicos.

Pelos seus cálculos, o Brasil chegou a ter, no máximo, 220 censores — que se ocupavam de fiscalizar a imprensa, as artes, a publicidade, etc. no país inteiro. É pouca gente para tanto trabalho, e uma das soluções da ditadura foi a autocensura. Como esse expediente vigorou durante o regime militar?
Houve jornais que declaradamente optaram por uma posição cínica, defendendo, em 1976, uma “censura inteligente” — feita por pessoal mais bem preparado política e intelectualmente. Constatei, na prática, que os jornais optaram preferencialmente pela autocensura ao encampar as notas da Polícia Federal transmitidas pelo Serviço de Informação do Gabinete (Sibag), vinculado ao gabinete do ministro da Justiça, mas sem registro no organograma dos órgãos federais — portanto, clandestino. A alternativa era a censura prévia.
Os censores estiveram nas redações para cortar os “excessos” em poucos periódicos — O Estado de S. Paulo, Tribuna da Imprensa, O Pasquim, O São Paulo, Opinião, Movimento e Veja. O governo do general Ernesto Geisel, com a promessa de abertura, ainda que “lenta, gradual e segura”, não deixou de estabelecer os parâmetros do que considerava permitido — mesmo que nos bastidores os ministros Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil, e Armando Falcão, da Justiça, mantivessem diálogos com jornalistas anunciando a retirada da censura das redações. As notas proibitivas continuaram a ser transmitidas até fins de 1977.
Nos primeiros dias de abril de 1975, o número 300 de O Pasquim trazia o editorial intitulado “Sem censura”, escrito por Millôr Fernandes, notificando ao leitor que desde 24 de março o tablóide se encontrava livre da censura prévia. Depois de um telefonema do Dr. Romão, o último dos quase 30 censores que o jornal teve em cinco anos, estava decretado que a responsabilidade passava a ser da redação.
Para Millôr, a responsabilidade pelo texto impresso que chega às bancas, objurgado ou não, rasurado à caneta vermelha pelo dono do tablóide ou pelo censor do Estado, era sempre da equipe de redação. Por isso o chargista termina o editorial afirmando que ''sem censura não quer dizer com liberdade''. No desenrolar dos acontecimentos, o exemplar de número 300 foi apreendido nas bancas por determinação da Censura Federal — e Millôr Fernandes deixou O Pasquim.

Dá para dizer que boa parte da sociedade apoiava a censura?
Ao se mostrar a censura por dentro, também se tem uma nova série de casos que seriam divertidos se não revelassem uma realidade sombria. Por exemplo, a aparição de um certo Movimento Auxiliar de Recuperação da Juventude Brasileira, que enviou ao Ministério da Educação, em 1972, um apelo para enrijecer a censura. O ministério, por meio de sua Divisão de Segurança e Informações, fez questão de notificar o Serviço de Censura de Diversões Públicas das propostas do grupo.
Ou ainda de um abaixo-assinado enviado em 1970 ao Ministério da Justiça cobrando “medidas governamentais contra o abuso de piadas de mau gosto que estariam sendo feitas sobre portugueses em programas de rádio e televisão”. O secretário particular do ministro da Justiça expediu o abaixo-assinado ao Serviço de Censura — cujo chefe reagiu com a proposta de que seus subordinados vetassem qualquer programa que apresentasse esse risco.

O episódio da “ditabranda” — que expôs o Grupo Folha a um desgaste histórico — ajudou a desmascarar o apoio logístico da empresa à ditadura, especialmente à Oban (Operação Bandeirantes). Dois capítulos de Cães de Guarda tratam do caso Folha da Tarde, que foi chamado até de “Diário Oficial da Oban”. Você poderia resumir como o FT foi entregue às mãos do regime?
A trajetória da Folha da Tarde espelha tanto as rupturas e mudanças no panorama brasileiro, como ainda os caminhos percorridos pelo Grupo Folha da Manhã para se adaptar aos percalços e à efervescência política daquele período, perdendo poucos anéis, mas jamais os dedos. O corpo de redação da Folha da Tarde, de 1967 a 1984, é formado por dois grupos distintos: os de antes e os de depois do AI-5.
Nas manchetes da Folha da Tarde de 1968, o tom é quase sempre político. Em abril, trazem as torturas sofridas durante oito dias, no Rio, por dois irmãos e cineastas durante a missa de sétimo dia do estudante Edson Luís, morto no mês de março em um conflito com a Polícia Militar no restaurante estudantil Calabouço, no Rio. Em 2 de outubro, em letras garrafais, o jornal diz: “Conheça Vladimir, ele quer o poder”. No prédio da Alameda Barão de Limeira, a Folha da Tarde ainda noticiou, no dia 13 de dezembro, a libertação de José Dirceu e a transferência de outros estudantes, presos no Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo, para outras unidades militares e do Dops em todo o país.
Com a decretação do AI-5, muitos proprietários de empresas de jornal criam alternativas para se adaptarem aos “novos tempos”. Na mesma semana que o regime autoritário endureceu, em vários órgãos de imprensa os jornalistas mais combativos foram demitidos. Alguns jornalistas da Folha da Tarde eram simpatizantes da militância armada de esquerda, abrigando reuniões em suas casas, hospedando pessoas ou participando da rede de apoio.
A partir de julho de 1969, com o fim da equipe de redação formada a partir de outubro de 1967, o jornal, torna-se, nas palavras de Cláudio Abramo, sórdido. O papel desempenhado pelo grupo Folha da Manhã durante os anos de 1970 recebe muitas críticas. Acusam-se o jornal e a empresa de algo extremamente sério: de terem sido entregues à repressão como órgãos de propaganda, enquanto papel, tinta e funcionários eram pagos pelo grupo.
Encontrei muitos depoimentos que se auto-atribuíam a criação da célebre frase que definiu a Folha da Tarde a partir de julho de 1969. O jornal era tido como ''o de maior tiragem'', devido ao grande número de policiais que compunham sua redação no pós-AI-5. Muitos também a conheciam, por isso, como ''a delegacia''.
Os jornalistas responsáveis, íntimos do círculo policial repressivo, trocaram intencionalmente a narrativa de um acontecimento pela publicação de versões que corroborassem o ideário autoritário oficial. Certamente, acreditavam em suas ações, compactuando sempre com o poder vigente. A essa atitude se pode dar o nome de autocensura, como também colaboração.
Fiéis aos seus ''donos'', esses cães de guarda farejaram uma brecha, protegeram uma suposta morada e, principalmente, ao defender o castelo, venderam à sociedade uma imagem errônea. Quando o ''tabuleiro do poder'' modificou-se, muitos desses servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre.
De todos esses esquemas e estruturas para perder poucos anéis, algo deve ser sublinhado. O jornal, impresso ou televisionado, é um produto que vende um serviço, a informação, comprada pelos leitores. Assim, muitos pagaram pelo jornal impresso para saberem o que se passava nos seus mundos. Outros sofreram com o que estava impresso no jornal, mesmo que no dia seguinte este tenha virado simples papel de embrulho de peixe nas feiras.

Que eu saiba, a Folha jamais reconheceu — e resiste a abordar — seu colaboracionismo. Você acredita que, com novas revelações e denúncias, a família Frias poderá mudar de estratégia e se retratar publicamente?
Não creio.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Carta Maior
Data: 2010-10-29
Autor: Beatriz Kushnir
Comentário Boitempo:
Título: A tentação de ver
Matéria: O ministro da Justiça no governo Geisel, Armando Falcão, pronunciava que tanto pela Emenda Constitucional n° 1, de 1969, como pelo AI-5 o país vivia em pleno Estado de Direito e democracia. E, por isso, segundo ele, cabia a censura. Assim, relembrando a proibição ao filme Je vous salue, Marie, impunha: “Se fosse ministro, não deixaria passar. Todo mundo deve ser poupado da tentação de ver”.

Símbolo e base do governo autoritário, a extinção dos DOPS e do aparato repressivo deveriam garantir ao cidadão liberdade de expressão e de ir e vir – pilares da democracia. A difícil marca de ser fichado no DOPS e as dificuldades que esse estigma impõe a uma parcela dos que tiveram suas vidas registradas, somadas às garantias constitucionais que permitem o acesso à informação, ao mesmo tempo em que garantem a preservação da intimidade do cidadão, são os ingredientes que demonstram o quão calorosa é esta seara.

O uso e a introjeção da ideia de criminalidade política demonstra como um organismo de repressão e um governo autoritário juntos cunham a imagem do que é impróprio e, portanto, passível de ser reprimido; e como, socialmente, essa noção é aceita e passa a justificar a existência de uma instituição como o DOPS, por exemplo. A existência de uma “lógica” do censor faz dessa polícia política uma entidade “necessária”. As origens de uma sociedade baseada no autoritarismo e na exclusão dimensionam o peso e o papel de uma cultura da censura – o esforço de delimitar o legal e o ilegal. No Estado brasileiro republicano, essa foi uma tarefa, um ato de fundação.

A censura à grande imprensa nos tempos da mais recente ditadura civil-militar brasileira corrobora com a ideia de que, em um tempo de imposições e silêncio, se informar apenas pelas notícias permitidas era ficar décadas atrás de seu tempo. A “queda-de-braço” entre os meios de comunicação e os órgãos repressivos tinha um objeto de desejo: impor o que podia ser legal, por um lado, e legalizar, explicitando, o ilegal, por outro. Assim, o binômio ordem pública/segurança nacional regeu a polícia política, e estabeleceu o que se podia difundir como notícia. Aos órgãos de repressão cabia definir o que era permitido.

Lidar com o sigilo e a privacidade nos faz pensar. Alguns dos “fichados” afirmam que os “acervos da Ditadura” são fruto das incursões policiais nas suas residências, e contêm documentos extremamente íntimos, além de cartas e objetos de uso pessoal. A natureza desse arquivo impõe que alguns deles não queiram vê-los aberto ao público de maneira indiscriminada.

O ponto central é: será que algum arquivo tem o mérito de conter as informações verdadeiras acerca dos fatos por ele guardados? A formação dos “arquivos da Repressão”, e sua posterior abertura, foi pensada pelos cientistas sociais europeus para o caso da antiga URSS. A problemática para eles era como tornar aquele acervo um instrumento de pesquisa, ao mesmo tempo que refletiam tanto em manter sua organização original, como em estabelecer critérios para a sua institucionalização enquanto um instrumento de consulta pública. Era também uma questão para esses pesquisadores europeus a seara dos direitos civis, da manutenção da privacidade dos indivíduos fichados e, principalmente, do que realmente se poderia esperar daquele tipo de fonte.

Como se pode verificar, pesquisadores brasileiros e europeus enfrentam dilemas semelhantes. Mais que isso: o que esperar desse material, que perguntas fazer, e o que realmente ele poderia responder?

Nesse contexto, as ponderações são sobre as funções e os limites dos arquivos para a tessitura da história. O cerne da preocupação, de fato, é pensar o mito da “verdade histórica”. Em que situação o historiador se sente mais seguro: no registro escrito ou no depoimento a posteriori.

Quanto ao acesso aos “acervos da Ditadura” e à possibilidade de consultá-los como fonte histórica no Brasil, não podemos esquecer que, entre a sua formação e a sua constituição como um arquivo, um longo período de abandono caracterizou o material. Há limites tênues e tensos que separaram o que é permitido e o que deve ser considerado ilegal; o que é público para o corpo social e o que fere a dimensão privada da história de cada cidadão. Assim, os pesquisadores se encontram em uma encruzilhada: por um lado, dependem da informação produzida pelo Estado, que – sob a égide da segurança da nação – se entende no direito de “conhecer” os atos dos seus cidadãos; por outro, encontram-se limitados em suas pesquisas pelas pessoas alvo dessa vigilância, que desejam preservar sua vida pessoal, sua intimidade e honra.

Não sabemos quanto do conjunto original se manteve intacto após a doação às instituições de guarda, ocorrida com a extinção legal das agências repressivas. O arquivo não é apenas um lugar de reunião de documentos ou o locus de trabalho do arquivista. No caso dos “arquivos da Ditadura”, há que se ressaltar uma peculiaridade: durante a sua vigência, funcionaram como acervo interno de um órgão de segurança; após a sua extinção, assumiu o caráter de arquivo público. Esse perfil concede ao acervo uma característica própria. Se, num primeiro momento, ele é um instrumento restrito de um órgão público, “vivo” e constantemente realimentado, numa segunda fase ele é deslocado para a seara pública, e as informações ali contidas passam das mãos de poucos, para um acesso, a princípio, irrestrito.

Estes acervos, por um lado, têm como objetivo identificar o “fichado” no mundo social; por outro, trata-se de um arquivo que explicita o universo do outro a partir da lógica interna de seu titular. Ou seja, da perspectiva da polícia. O acervo permite tanto reconstituir uma trajetória do “fichado”, a partir da perspectiva do agente policial, como a do “fichador”.

Quando esses acervos passam ao domínio público, certas nuanças se explicitam. O material chega desorganizado, e certamente houve uma “limpeza” realizada por ex-agentes do órgão, o que nos leva a crer que a sua lógica interna tenha sido muitas vezes deliberadamente manipulada. Uma característica, contudo, lhes é marcante: contêm informações sobre determinadas pessoas, mas não são arquivos privados. Por pertencerem a um órgão público, sua documentação é de domínio da sociedade, sendo esta situação um nó difícil de desatar.

Outra forma de apreender o conteúdo dos “arquivos da Ditadura” é verificar as premissas que ditaram sua acumulação. As informações ali contidas foram recolhidas sob a orientação do olhar da polícia. Há, portanto, que se levar em conta a distância entre as atividades políticas outrora realizadas e o conteúdo das fichas policiais elaboradas, compreendendo-se que foi a lógica da desconfiança de um Estado autoritário que produziu o acervo. Por outro lado, foi a lógica da democracia da informação que os transformou em arquivos públicos, abertos à consulta. Esse acesso é uma forma positiva de falar de um “silêncio”, como também de permitir ao pesquisador rediscutir a constituição de uma memória.•.

A volta ao passado, para alguns, é um ato de abrandamento e de eliminação das arestas e das diferenças, é um redesenhar que deve respeitar uma lógica da harmonia e que dispensa tensões e atritos. Há que se redimensionar o fascínio que os “arquivos da Ditadura” despertaram, quando a esse deslumbre se contrapõem as dificuldades do seu manuseio.

O arrebatamento de poder consultar um material secreto em um momento de liberdade política gerou a sensação de que todo o segredo do passado seria finalmente liberto. Todavia, muito rapidamente renunciamos a essas pretensões e começamos a perceber que tudo não é assim tão simples, que os novos arquivos não falam por si sós, que, como todos os outros arquivos, eles devem ser submetidos a uma crítica exigente das fontes, que seu manuseio só pode ser feito se forem respeitadas as preocupações éticas e metodológicas elementares, e que, mesmo bem utilizados, e interrogados a partir de questões pertinentes, não dispensam o historiador de seu trabalho habitual de reconstituição e de interpretação − e não têm resposta para tudo.

Ao perceber a onipotência com que alguns os encaram e a decepção que tamanha expectativa pode gerar, poder-se-á concluir que tais arquivos são apenas mais uma fonte para as pesquisas. Uma fonte rica e que não pode ser negligenciada, mas as informações ali contidas necessitam do eterno cotejar com outras para mais bem se compreender aquele período da História. Sem dúvida, o mais importante é que, com a liberação desses acervos, houve um aumento de pesquisas e reflexões nesta temática, a exigência metodológica e ética, certa modéstia e humildade quanto aos resultados e ao requestionamento das certezas adquiridas.

Os arquivos – em especial os que contêm informações de caráter pessoal, como os dos serviços de segurança –, possibilitam duas constatações: a de que lá se encontram também informações improcedentes, inexatas e enganadoras; e a de que lá se inscreveu a história de um órgão de Estado. Os “documentos da Ditadura” não devem ser tomados como a verdade da vida dos indivíduos neles registrada, mas sim como a expressão da lógica da desconfiança que permeava um órgão com características ditatoriais. O passado, conforme lembra Henry Rousso, é uma “terra estrangeira”, que exige, no presente, o passaporte do documento conservado para nele ingressar. Nesse sentido, ”[...] acessíveis ou fechados, os arquivos são sintomas de uma falta, e a tarefa do historiador consiste tanto em tentar suprimi-la de maneira inteligível, a fim de reduzir o máximo possível a estranheza do passado”.

(*)Beatriz Kushnir é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp. É autora de "Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição", organizadora de "Perfis cruzados: trajetórias e militância política no Brasil" (ambos publicados pela Imago) e de "Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988" (Boitempo Editorial)
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Rio Bravo
Data: 2010-12-3
Autor: redação
Comentário Boitempo:
Título: Podcast 170 - Arquivos da ditadura: Beatriz Kushnir e a ética do olhar
Matéria: No Podcast Rio Bravo de hoje, a professora e pesquisadora Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, fala sobre sua pesquisa acadêmica envolvendo os arquivos dos órgãos de repressão da ditadura brasileira. Beatriz fala da tensão entre o direito constitucional do acesso à informação e do direito do indivíduo à preservação de sua intimidade. Explica que os arquivos não contêm uma mitológica "verdade histórica," e sim uma descrição dos eventos a partir da lógica interna de seus autores. "Os arquivos não falam, apenas respondem," e cabe ao historiador fazer as perguntas certas, diz ela. Beatriz é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp.

Para ouvir: http://www.riobravo.com.br/podcast/podcast170.mp3
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Carta Capital
Data: 2011-02-22
Autor: Leandro Forte
Comentário Boitempo:
Título: Dilma na cova dos leões
Matéria:


Na íntegra do discurso de Dilma Rousseff proferido na cerimônia de aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, disponibilizado na internet pela página do Portal UOL, lê-se, não sem certo espanto: “Estou aqui representando a Presidência da República. Estou aqui como presidente da República”. Das duas uma: ou Dilma abriu mão, em um discurso oficial, de sua batalha pessoal para ser chamada de “presidenta”, ou, mais grave, a transcrição de seu discurso foi alterada para se enquadrar aos ditames do anfitrião, que a chama ostensivamente de “presidente”, muito mais por birra do que por purismo gramatical.

Caso tenha, de fato, por conta própria, aberto mão do título de “presidenta” que, até então, lhe parecia tão caro, este terá sido, contudo, o menor dos pecados de Dilma Rousseff no regabofe de 90 anos da Folha.

Explica-se: é a mesma Folha que estampou uma ficha falsa da atual presidenta em sua primeira página, dando início a uma campanha oficial que pretendia estigmatizá-la, às vésperas da campanha eleitoral de 2010, como terrorista, assaltante de banco e assassina. A ela e a seus companheiros de luta, alguns mortos no combate à ditadura.

Ditadura, aliás, chamada de “ditabranda”, pela mesma Folha.

Esta mesma Folha que, ainda na campanha de 2010, escalou um colunista para, imbuído de sutileza cavalar, chamá-la, e à atual senadora Marta Suplicy, de vadia e vagabunda.

Essa mesma Folha, ora homenageada com a presença de Dilma Rousseff.

Digo o menor dos pecados porque o maior, o mais grave, o inaceitável, não foi o de submeter a Presidência da República a um duvidoso rito de diplomacia de uma malfadada estratégia de real politik. O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. Em noite de gala da rua Barão de Limeira, a presidenta usou como seu o discurso distorcido sobre dois temas distintos transformados, deliberadamente, em um só para, justamente, não ser uma coisa nem outra. Uma manipulação conceitual bolada como estratégia de defesa e ataque prévios à possível disposição do governo em rever as leis e normas que transformaram o Brasil num país dominado por barões de mídia dispostos, quando necessário, a apelar para o golpismo editorial puro e simples.

A liberdade de expressão que garantiu o surgimento de uma blogosfera crítica e atuante durante a guerra eleitoral de 2010 nada tem a ver com aquela outra, defendida pela Associação Nacional dos Jornais, comandada por uma executiva da Folha de S.Paulo. São posições, na verdade, antagônicas. A Dilma, é bom lembrar, a Folha jamais pediu desculpas (nem a seus próprios leitores, diga-se de passagem) por ter ostentado uma ficha falsa fabricada por sites de extrema-direita e vendida, nas bancas, como produto oficial do DOPS. Jamais.

Ao comparecer ao aniversário da Folha, a quem, imagina-se, deve ter processado por conta da ficha falsa, Dilma se fez acompanhar de um séquito no qual se incluiu o ministro da Justiça. Fez, assim, uma concessão que está no cerne das muitas desgraças recentes da história política brasileira, baseada na arte de beijar a mão do algoz na esperança, tão vã como previsível, de que esta não irá outra vez se levantar contra ela. Ledo engano. Estão a preparar-lhe uma outra surra, desta feita, e sempre por ironia, com o chicote da liberdade de imprensa, de expressão, cada vez mais a tomar do patriotismo o status de último refúgio dos canalhas.

Dilma foi torturada em um cárcere da ditadura, esta mesma, ditabranda, que usufruiu de veículos da Folha para transporte e remoção de prisioneiros políticos – acusação feita pela jornalista Beatriz Kushnir no livro “Cães de guarda” (Editora Boitempo), nunca refutada pelos donos do jornal.

A presidenta conhece a verdadeira natureza dos agressores. Deveria saber, portanto, da proverbial inutilidade de se colocar civilizadamente entre eles.



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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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