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Title: A NAVEGAÇÃO VENTUROSA [Fortunate Voyage]
Subtitle: essays about Celso Furtado writings
Author: Francisco de Oliveira
Pages: 132
ISBN: 85-7559-037-5
Celso Furtado is a known Brazilian economist in all over the world. He has published more than thirty books and legated to Brazil an authentic third world theory. To honored this great intelectual, Francisco de Oliveira organized some essays about Furtado showing his contributions to understanding Brazil, its development and underdevelopment.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Jornal do Brasil online
Data: 2003-10-29
Autor: Milton Temer
Comentário Boitempo:
Título: Dúbia celebração
Matéria: Bizarra coincidência. Segunda-feira, 27, terminei a leitura de um livro fundamental para o entendimento do pensamento político brasileiro. Para mim, razão de celebração. Mesma data em que, há um ano, Luis Inácio Lula da Silva, também aniversariante do dia, vencia o segundo turno das eleições presidenciais, em sua quarta tentativa. E que deveria, também, ser objeto de celebração.

O livro é “A navegação venturosa”, mais uma tacada da Boitempo, editora paulista que, assim como a Contraponto, do Rio, garante excelência. Trata-se de uma coletânea de ensaios do mestre Chico de Oliveira sobre outro mestre, Celso Furtado, “a quem devemos tudo”, segundo o próprio autor. Não vou comentá-lo em detalhes, porque não é esse o espaço. Mas é importante ressaltar que, longe de apologia incondicional, nos deparamos com uma avaliação também crítica da obra do grande economista e cientista social. E, por isso, a homenagem é insuperável, para além de se constituir em base de reflexão e de imenso aprendizado, para nós todos, simples mortais.

Mas por que me refiro à coincidência de celebrações como bizarra? Por uma razão simples. Tanto Chico quanto Celso, assim como Antonio Candido, foram ícones teóricos do Partido dos Trabalhadores até a vitória eleitoral. Ambos tiveram participação destacada na discussão sobre as prioridades de um governo popular e democrático, e desempenharam papel essencial na mobilização da intelectualidade para o apoio a Lula. O então simples candidato os tinha ao lado sempre que podia.

Hoje, como marca maior deste primeiro ano de governo, estão largados na dispensa das inutilidades. Não são consultados nas tertúlias do Ministério da Fazenda ou do Banco Central. Pelo contrário. São até alvo de desprezo e desconsideração por parte dos burocratas gerados no neoliberalismo predatório dos anos 90, e que lamentavelmente continuam a dar as cartas no governo do agora Presidente Luis Inácio Lula da Silva. Burocratas que, pelas obras de Chico e Celso, certamente passearam muito pouco. O que não surpreende. Pois o que priorizam são os parâmetros determinados pelos famigerados “mercados”, esses espaços privados de operação especulativa dos grandes agiotas, daqui e de fora. E é natural que assim seja. Vindos de onde vieram, e para onde certamente voltarão tão logo terminem o “dever de casa” que trazem do FMI e demais agências internacionais, eles têm outros paradigmas para orientar a determinação de taxa de juros e metas de inflação. Os paradigmas dos estrategistas dos banqueiros, daqui e de fora.

Como conseqüência natural, veneram o “baixo risco Brasil” e a “estabilidade” da financeirização virtual, com a mesma intensidade com que se lixam para os recordes, sempre simultâneos, de desemprego e perda de valor dos salários, na balanço econômico da vida real. São os futuros donos de “consultorias”, os oráculos modernos dos “bons caminhos” de governo, sempre desenhados no rumo exato dos interesses de suas seletas clientelas.

Nesse espaço de formulações sinistras, certamente não há cadeiras para Chico de Oliveira e Celso Furtado. Estes são intelectuais com projeto de nação fundado na valorização da cidadania, na justiça social e na radicalização democrática. Produzem heresias contra todos os dogmas. Ora é Chico, não hesitando em desmistificar o charme dos sindicalistas transformados em banqueiros, e agindo como grandes capitalistas, através do controle dos fundos de pensão; ora é Celso, não temendo pregar a ameaça de moratória como forma mais eficaz de pressionar os que se locupletam com os pornográficos juros e serviços de uma dívida externa nunca auditada.

Evidentemente, para que tais predadores estejam vivendo momentos de gáudio, enquanto grande parte dos eleitores da esperança manifestam crescente perplexidade, há um responsável do lado de cá da cerca. É o presidente Luis Inácio Lula da Silva. É ele quem determina os rumos e opções da macroeconomia, e que mantém esta já insustentável submissão ao continuísmo de um projeto rejeitado. E só ele, portanto, pode ser o agente da mudança. Se é que isso ainda é possível, não seria mal que alguém com influência no Palácio viesse a sugerir convite a Chico de Oliveira e Celso Furtado para um desses cineminhas no Planalto. Ou trazer Lula para o lançamento do livro, que une os dois dia 4, aqui no Rio. O contágio virtuoso só traria benefícios.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Jornal do Brasil
Data: 2003-12-27
Autor: Cristiane Costa e Alexandre Martins
Comentário Boitempo:
Título: Homem de Idéias 2003
Matéria: Fundador do PT e atualmente um de seus maiores críticos, o sociólogo Francisco de Oliveira foi eleito porta-voz da frustração que já toma conta do meio intelectual

Polêmico. Assim poderia ser definido o Homem de Idéias 2003. Ele foi um dos intelectuais mais discutidos este ano, quando boa parte da esquerda brasileira se deu conta de que seu projeto político foi para o espaço, justamente no momento em que parecia pronto para se concretizar, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência e a ampla votação no Partido dos Trabalhadores nas últimas eleições. Revoltado com o que considera uma adesão aos princípios neoliberais e um continuísmo do governo Fernando Henrique, o sociólogo Francisco de Oliveira não se furtou de críticas ao governo e terminou o ano rompido com o partido que ajudou a fundar, em carta aberta que o tornou porta-voz de uma frustração cada vez mais generalizada. ''Tenho o direito de cobrar do Partido dos Trabalhadores, pelo governo que ele realiza, pela minha condição de militante e de cidadão. E, daqui por diante, exclusivamente pela minha condição de cidadão. Pois muito além do que imagina e pensa a direção partidária, o PT tem que dar satisfações à cidadania, que lhe deu as condições para disputar democraticamente e chegar ao governo. Falta a essa liderança consciência democrática e republicana, enquanto lhe sobram arrogância, prepotência e maneirismos caboclos de péssima fatura.''

A polêmica foi também premiada na escolha do Homem de Idéias por um júri formado pelos escolhidos de anos anteriores, como os críticos literários Alfredo Bosi, Antonio Candido e Roberto Schwarz, o arquiteto Oscar Niemeyer, os cientistas sociais Luís Eduardo Soares, José Luís Fiori e Rubem César Fernandes, o psicanalista Jurandir Freire Costa, o filósofo Leandro Konder e o escritor Luiz Fernando Verissimo, entre outros. Se Veríssimo parece concordar com as idéias de Chico Oliveira, destacando sua coerência política e seu posicionamento crítico, outros votantes escolheram o Homem de Idéias 2003 apesar da discordância, como José Luís Fiori, que destaca o papel político desempenhado pelo sociólogo, para depois ressalvar:

- Embora não concorde com todos seus posicionamentos, sua militância, presença intelectual e luta política são inegáveis.
Postura semelhante à do historiador José Murilo de Carvalho, que também votou no sociólogo.
- Pela batalha que está conduzindo pelas mudanças no PT, o Chico de Oliveira merece o título de Homem de Idéias 2003. Isso não implica que concorde pessoalmente com o pensamento dele. Mas sua coragem intelectual e física de criticar o partido intensifica a importância do seu papel na vida pública - afirma.

Pernambucano radicado em São Paulo, Francisco de Oliveira é coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP, onde se aposentou como professor titular de sociologia. Aos 70 anos, Chico conserva o bom humor de um menino. E a capacidade de arrumar briga até com os amigos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem trabalhou no Cebrap, ao lado de outros nomes importantes, como Otávio Ianni e Paul Singer. Fernando Henrique é definido como ''ex-sociólogo, hoje ex-presidente e eterno candidato ao Planalto'' em O ornitorrinco, ensaio publicado este ano pela Boitempo em edição conjunta com Crítica à razão dualista, texto lançado originalmente em 1972.

As críticas que levaram à ruptura com o PT já renderam a Chico vários aborrecimentos, como uma ameaça do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de processá-lo; a retirada, a pedido da Presidência, de um artigo assinado por ele numa coletânea sobre reforma política e cidadania e o boicote do PT local, que teria chegado a rasgar os cartazes anunciando sua conferência este mês, em Londrina.
- Não sou nenhum herói - avisa Chico. - Mas vejo à minha volta muita decepção e desgosto. Parte da intelectualidade está insatisfeita e gostaria de fazer mais críticas do que tem feito.
Cansado de ser ''o chato do PT'' e com as restrições cada vez maiores ao espaço de discussão nas reuniões, Chico preferiu exercitar a crítica fora do partido a ficar calado.
- A meu modo de ver, o papel do intelectual hoje é o de um crítico. Não devemos fazer concessões nem baixar a guarda. O histórico do século 20 não autoriza nenhum otimismo. Vários partidos de esquerda mudaram de posição quando chegaram ao poder.
Chico já não tem mais as ilusões do rapaz que, em 1979, foi um dos 100 pré-fundadores do Partido dos Trabalhadores, em São Bernardo do Campo. Hoje, vê dificuldades na criação de um novo partido, formado por dissidentes do PT.
- Criar um novo partido não é fácil nem é algo que se faça da noite para o dia. As velhas bases estão em processo de erosão. O movimento sindical está paralisado pelo desemprego. O funcionalismo vem sofrendo um ataque cerrado desde o governo Collor. A reação ainda é fraca. Num cenário como esse, é muito difícil um partido clássico se firmar.
O passado de Chico de Oliveira é o de um típico militante da esquerda. Cursou ciências sociais na Universidade do Recife, trabalhou na Sudene com Celso Furtado (personagem do livro A navegação venturosa, lançado este ano também pela editora Boitempo), foi preso após o golpe de 1964 e amargou um exílio voluntário na Guatemala e no México. Voltou ao Brasil e escreveu vários livros analisando os problemas estruturais do país, como A economia da dependência imperfeita, Os direitos do antivalor, A falsificação da ira, Elegia para uma re(li)gião e O elo perdido, entre outros.
Escritos com 30 anos de intervalo, Crítica à razão dualista (1972) e O ornitorrinco (2003) foram reunidos num único livro por uma razão muito simples: se o primeiro identifica o subdesenvolvimento como produto da evolução capitalista, mostrando que opulência e miséria não eram mais do que frutos do mesmo processo, o segundo mostra o resultado darwiniano dessa combinação de setores altamente desenvolvidos com uma pobreza extrema. Na figura do ornitorrinco, um animal improvável na escala da evolução, meio ave, meio mamífero, Chico retratou o país em que vivemos.
Na escala de evolução do PT, Chico também identifica o surgimento de personagens híbridos, nem lá nem cá.
- Eles são responsáveis pelo partido ter se voltado contra seus eleitores, como no caso da reforma da Previdência. Arrisco dizer que representam uma mudança de classe, que não se enquadra propriamente na dicotomia clássica entre burguesia e proletariado, responsável pelo deslocamento da base petista e pela mudança estrutural das forças que formam o partido.
Sua face mais visível, segundo Chico, seriam os ex-sindicalistas que hoje gerem os fundos de pensão. Numericamente poucos, teriam uma força enorme no governo Lula.
- São os fundos que financiam a acumulação, circulação e distribuição de capitais no país. Mas, ao defender os interesses e promover a rentabilidade desses fundos, estas pessoas passam a exigir coisas que conflitam diretamente com os interesses dos trabalhadores, da base petista, que clama por mudanças - explica o sociólogo.

Já é hora, acredita, de o partido ser cobrado pelo abandono de suas promessas de campanha. Segundo Chico, o PT está escondendo, sob o manto de problemas estruturais do país, escolhas econômicas e políticas que são feitas conscientemente pelo governo. O paradoxo é que a própria vitória da esquerda teria desmobilizado os movimentos sociais que poderiam exigir mudanças.
- O governo operou um seqüestro da sociedade civil. O PT era o centro de referência dos movimentos sociais. Como foi criado a partir deles, quase se confundiam. Por isso o abandono de suas antigas propostas é tão grave.

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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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