Title:CRÍTICA À RAZÃO DUALISTA/O ORNITORRINCO [Critique of Dualistic Reasoning/The Platypus]
Author:Francisco de Oliveira
Pages:150
ISBN:85-7559-036-7
This essay has changed people’s understanding of the Brazilian economy. To update this text, the author wrote “O ornitorrinco” [The Platypus], a reference to the strange mammal that is perhaps the best translation of today’s Brazil: a bizarre combination of highly developed industries and an enormous financial sector, but with feet of mud. Together with the two essays is Roberto Schwarz’s “Preface with questions”, a true invitation to see the world beyond the strict pragmatism of modern times.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal do Brasil
Data:2003-12-27
Autor:Ricardo Antunes
Comentário Boitempo:
Título:Um novo símbolo para o PT
Matéria:Livro de Francisco de Oliveira sugere que tucano deu lugar ao ornitorrinco
No começo dos anos 70, em plena ditadura militar, com sua face mais tenebrosa sob a batuta de Médici, todos que que líamos o que conseguia ser publicado nestes cantos ficávamos esperando pela fornada crítica que por vezes burlava a censura, trazendo pistas capazes de nos auxiliar na compreensão da questão brasileira.
Com enorme impacto pudemos ler, naqueles anos, o seminal Crítica à razão dualista, de Francisco de Oliveira, publicado pelo Cebrap, que na época era um dos escoadouros do que melhor se produzia no espaço acadêmico fora das universidades, sob intervenção das forças repressoras. Chico de Oliveira, na linhagem da nossa incipiente economia política, em confluência com a teoria social, seguia os passos abertos por Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e seu mestre, Celso Furtado, para citar os mais elevantes.
Seu endereço crítico era o pensamento cepalino, e em particular os seguidores do dualismo, que binariamente separavam o atraso do moderno - o primeiro, entendido como um entrave ao avanço do segundo. Nas trilhas da dialética, Chico desmontou o esquema dual e nos ofereceu uma compreensão totalizante e contraditória da análise brasileira, mostrando que o atraso era não entrave, mas condição para a reprodução ampliada do moderno.
Contrariamente ao esquematismo que também prevalecia na esquerda brasileira pecebista, mas também indo contra o politicismo que tinha sua origem em certa ciência política de matriz uspiana, Chico de Oliveira redesenhava o sentido de nossa industrialização sob o getulismo, bem como o papel de centralidade do Estado nesse processo.
Com o foco fertilmente calibrado, tanto no movimento antitético da economia política quanto na configuração dos embates e das lutas entre as classes em disputa, no espaço da política, nosso autor descortinava, neste belíssimo texto de síntese, alguns enigmas do caso brasileiro. Se é impossível neste espaço mencioná-los todos, alguns são imprescindíveis.
Primeiro, a Crítica desnudava a articulação complexa entre o moderno e o atraso, a cidade e o campo, o urbano e o rural, a indústria e a agricultura, sendo que o primeiro, o mundo das cidades, dependia da sucção do segundo para sobreviver. O mesmo se dá com sua análise inovadora do terciário: seu aparente inchaço, quase como o peitoral do ornitorrinco, é antes funcional ao sistema de acumulação do que seu antípoda. Não tem nada de marginal e nem de dual.
Variante quase assemelhada (mas também um pouco distanciada) da chamada via prussiana ou da revolução passiva, nossas classes dominantes, leopardianamente, quando davam dois passos a frente, o faziam dando sempre um passo para trás. Avançavam e tropeçavam, alavancavam e atolavam, realizando sua conciliação pelo alto. Sem sobressaltos. Sempre excluindo qualquer participação efetiva das classes trabalhadoras. Seja através de movimentos, como o Republicano de 1889 e o chamado apologeticamente de ''Revolução de 30'', ou pelos golpes, como o do Estado Novo em 1937 ou a ditadura militar em 1964.
Segunda idéia: o papel central que a legislação getulista do trabalho teve como alavanca do processo de industrialização e de acumulação, transcendendo à análise politicista (quase sempre presente na obliterada e elástica teoria do populismo), que entendia freqüentemente as formas da dominação burguesa e, portanto, da política, desconectadas da sociedade civil. Erro analítico que levou a enormes descaminhos teóricos e políticos, de que foi exemplo o governo FH.
Se a industrialização era necessária para o salto brasileiro, a legislação social do trabalho, em particular no que concerne ao salário mínimo, teria que nivelar por baixo o custo de reprodução da força de trabalho. Com a aparente fisionomia do pai dos pobres, Getúlio foi a fotografia de corpo inteiro da nossa burguesia, ao mesmo tempo agressiva e medrosa, arrogante e matuta, elitista e insensível. Que se imagina na plena fruição do sonho americano, mas que vivencia de fato a dominação mundana e prosaica ancorada em nosso passado escravista, senhorial e colonial. Cara dominante do nosso ornitorrinco.
Com essa lembrança, passamos do texto seminal para o ensaio animal (O ornitorrinco) que completa o presente livro. Ele é o correspondente da Crítica à razão dualista para a era da mundialização dos capitais, da financeirização do capital-dinheiro e da brutal precarização do trabalho. É o ensaio típico, que remove nossa história recente, daquilo que venho denominando como sendo a era da informatização na época da informalização. Avanço tecno-científico, mundo digital, quase espectral, preso a um pêndulo que tenta (mas não consegue) descolar do caráter perene presente no trabalho, mas que tende cada vez mais para a superfluidade limite do trabalho, amantes que são, os capitais, do trabalho morto, e avessos à forma (potencialmente rebelde) do trabalho vivo.
Mas, afinal, o que é o ornitorrinco brasileiro? A resposta está estampada pelo autor: ele é altamente urbanizado, conta com pouca força de trabalho e população no campo, nenhum resíduo pré-capitalista e muito agrobusiness. Um setor industrial da segunda Revolução Industrial completo, avançado, amplificado pela terceira revolução, a molecular-digital ou informática. Uma estrutura de serviços muito diversificada numa ponta, quando ligada aos estratos de altas rendas, a rigor, mais ostensivamente perdulários que sofisticados; noutra, extremamente primitivo, ligado exatamente ao consumo dos estratos pobres. Um sistema financeiro ainda atrofiado, mas que, justamente pela financeirização e elevação da dívida interna, açambarca uma alta parte do PIB, cerca de 9% em 1998, quando economias que são o centro financeiro do capitalismo globalizado têm taxas muito inferiores.
Como a Crítica, O ornitorrinco é uma coleção explosiva de novas idéias, de um autor crítico e insubmisso, dos poucos, neste canto do mundo, que pensa a humanidade como uma construção societal que pode e deve ser desmercadorizada. Dotado de uma verve intelectual invejável, ancorado num marxismo vivo, renovado e criativo que, por isso, justamente acaba de ganhar o prêmio Homem de Idéias 2003.
No ornitorrinco brasileiro, diz Chico de Oliveira, há uma nova classe que ascendeu ao poder com o governo Lula. Ela não é, entretanto, a classe trabalhadora que, afinal, teria chegado ao paraíso.
Embora ela tenha sua origem em antigos trabalhadores e proletários do passado recente, muitos deles ex-cutistas, estes transformaram-se, ao longo deste último decênio, em analistas simbólicos que chegaram à fonte da mina, aos fundos de pensão, à gestão das estatais, à definição de quem vai se beneficiar dos FATs, fundos que hoje aproximaram tanto (outro traço do ornitorrinco) a CUT da Força Sindical. No governo FH, eles eram os doublés de banqueiros, núcleo duro do PSDB, como diz Chico. No PT (e há aqui uma clara continuidade) eles são os novos operadores dos fundos de previdência. Aliás, é por esse veio analítico que também se pode compreender a virulência com que o governo Lula impôs a (contra)reforma da (im)previdência, enquanto a política econômica do governo Lula amplia o desemprego e a miséria.
O ornitorrinco é um animal mamífero, que apresenta bico de pato e um só orifício urogenital (cloaca). É ovíparo, constituindo uma forma de transição entre reptis e mamíferos, oriundo da Austrália. Fica difícil não fazer a seguinte pergunta: se o PSDB tinha o pomposo tucano como logotipo colorido, será que o new PT, dudiano, encontrou afinal, vindo da Austrália, seu verdadeiro símbolo, o ornitorrinco?
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:O Estado de S. Paulo
Data:2008-05-11
Autor:Antonio Gonçalves Filho
Comentário Boitempo:
Título:Acima de tudo, uma rebeldia política
Matéria:Assim o sociólogo Francisco de Oliveira define o maio sangrento em que estudantes e operários viveram em perigo
SÃO PAULO - O professor de Sociologia pernambucano Francisco de Oliveira estava no México, em 1968, ano em que 300 estudantes foram massacrados por forças policiais numa manifestação política realizada em outubro, em Tlatelolco. Retornando ao Brasil nesse mesmo ano, o autor de Crítica da Razão Dualista (Boitempo), um dos fundadores do PT e hoje um de seus maiores críticos, testemunhou situações piores no País, do qual estava ausente desde sua prisão, em 1964. Na entrevista concedida ao Estado, o sociólogo conta essa experiência e faz um balanço dos movimentos surgidos na esteira do Maio de 1968.
O senhor foi preso em 1964 e voltou ao Brasil justamente em 1968, quando os franceses saíam às ruas para protestar. Que lembranças o senhor tem do período e como o senhor interpreta a palavra de ordem de Sarkozy, de "liquidar a herança de 1968"?
Tem certas ondas na história que são de difícil compreensão. Mesmo a posteriori é difícil dizer, porque nós, das ciências humanas, estamos muito presos à causalidade. Houve uma espécie de frisson quase universal em 1968 - mais notável na Alemanha e França. Passei dois anos no México e Guatemala antes de voltar. No México, em 1968, tivemos Tlatelolco (manifestação que terminou no massacre de 300 estudantes na Plaza de las Tres Culturas na cidade, em outubro desse ano). Se as ciências sociais nos ajudassem a prever eventos como esse, eu teria ficado no avião, não no México ou no Brasil. Não fui diretamente personagem de 1968, nem na França nem no Brasil. Acabara de chegar e, portanto, não poderia estar imerso na turbulência brasileira. Seria, então, falso falar sobre esse ano no Brasil. De qualquer modo, a interpretação mais aceita é que 1968 abriu as portas de uma espécie de revolução cultural no Ocidente, na qual se inscreveriam temas como o da sexualidade. Entretanto, dizem Rancière e Zizek que todo mundo esquece que 1968 foi sobretudo uma revolta política. Que ela tenha tido efeitos vagamente culturais nem precisa ser dito, pois toda revolução política tem efeitos culturais. Na França, essa foi marcadamente uma revolta anticapitalista. Os atores centrais não foram os estudantes, mas os operários. Se olharmos para outros panoramas e sociedades, veremos que isso se repete. No Brasil, também, embora o movimento operário estivesse submerso. Havia uma resistência operária muito forte ao regime militar, como provam as greves de Contagem e Osasco. Elas são marcantes nessa espécie de maio de 68 brasileiro, que culmina com a passeata dos 100 mil no Rio (protesto político contra a ditadura militar na Cinelândia, realizado no dia 26 de junho).
O senhor menciona o caráter anticapitalista do movimento de 1968. Seus protagonistas imaginavam mesmo estar fazendo uma revolução marxista? As manifestações não foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade?
Revolução é um fenômeno tão imprevisível que nenhuma ciência social é capaz de dizer o que seus atores queriam. Gosto muito da interpretação do Trotski sobre a Revolução Russa. Ela é tratada como a revolução mais previsível da história, mas Trotski diz, no prefácio de sua História da Revolução Russa, que ela aconteceu sem que nenhuma das suas causas - reconhecidas a posteriori como seus fatores detonantes - houvesse sido prevista. Uma das possíveis interpretações da revolução de 1968 é a de que a euforia do consumo teria levado os estudantes a célebres palavras de ordem como "É proibido proibir" ou "Sejamos realistas, peçamos o impossível". Coloca-se o acento na performance dos atores, o que não descarta o fato de as modificações estruturais na sociedade terem apertado o gatilho de algo que estava embutido nessas transformações. No Brasil, mal se iniciava o chamado período do milagre brasileiro. Portanto, qual era o efeito amortecedor ou detonador na sociedade brasileira? Não se conhece muito das ações clandestinas, sobretudo do Partido Comunista, que era o mais organizado. É possível, sim, dizer que as manifestações de maio de 1968 foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade, mas a relação de causa e efeito mais imediata é difícil de estabelecer. No Brasil, temos modificações importantes, como o sindicalismo que iria crescer no ABC, desconectado das tradições políticas anteriores do operariado, mas, do ponto de vista midiático, a manifestação mais robusta aconteceu mesmo no Rio.
Muitos dizem, como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que o que sobreviveu dos movimentos de liberação sexual de 1968 foi o hedonismo tolerante, hoje incorporado à ideologia hegemônica de uma sociedade turbocapitalista. Há outra maneira de explicar esse hedonismo sem relacioná-lo ao maio de 1968?
Não sei se eu diria isso tão categoricamente como Zizek. Houve, sem dúvida, uma mudança na família, que todos consideravam o núcleo básico da sociedade - na verdade, não é. Há uma espécie de antecipação do sistema capitalista, capaz de engolir os processos transformadores, de modo que a liberdade sexual virou parte da indústria de entretenimento. Há uma certa forma de capturar o novo, mas mesmo essa captura vai produzindo, no subterrâneo, modificações sociais que perduram. O Brasil é uma sociedade permissiva, que absorve as mudanças com uma velocidade espantosa. A Europa, ao contrário, é sempre mais recatada. A nossa é uma cultura pouco resistente. Ela se deixa penetrar, permear, modificar muito facilmente pelo que vem de fora, especialmente pelo que Gramsci chamava de americanismo. Até a semana passada acompanhava a novela Desejo Proibido, da Globo, em que o autor (Walther Negrão) tratou com delicadeza as transformações sociais do período (anos 1930, em Minas), enquanto na outra novela da mesma emissora, Duas Caras, o autor (Aguinaldo Silva) usou mão pesada e abusou do hiper-realismo sem conseguir o mesmo efeito. Acompanhei com prazer a primeira, justamente a mais doce, que parece mais revolucionária, por tratar com humor dessa revolução de costumes trazida pelo cinema americano.
No ano passado, estudantes brasileiros ocuparam reitorias em várias universidades do País, em atos de oposição ao decreto que alterava a autonomia universitária, indicando que a idéia de alienação dos estudantes no século 21 precisa ser revista. Como o senhor analisa essas ocupações, que ocorreram de forma independente de outras instituições? É possível dizer que elas são uma herança de 1968?
Não. Num ciclo longo à la Braudel, pode ser, mas num ciclo curto, os movimentos sociais não guardam essa memória. Ela é de difícil transmissão. Participei ativamente desses episódios na USP, porque flagramos o completo anacronismo das entidades de representação dos estudantes e professores. O grupo de professores, sem nenhuma representatividade, tentava estabelecer um diálogo entre a reitoria e os estudantes, o que mostra que essas instituições são rapidamente superadas na trajetória da sociedade brasileira. Há uma espécie de permanente obsolescência das instituições, que não conseguem processar os novos conflitos que vão surgindo. Por outro lado, é difícil dizer que o movimento estudantil guardava a memória de 1968. Isso nem passou pela cabeça dos estudantes.
Há 40 anos ninguém falava em refugiados climáticos ou catástrofes ambientais, mas essa já é a realidade depois de tsunamis, Katrinas e até terremotos no Brasil. Isso reaviva a discussão sobre migrações em massa e discriminação étnica e racial. A agenda libertária de 1968 pode ser afetada pela ameaça de catástrofes ambientais?
Certamente. Há um risco de recrudescimento repressivo dos estados nacionais e também a formação de um racismo sublatente em todas as partes do mundo. Ainda não estamos experimentando isso no Brasil porque, por enquanto, apenas exportamos gente que não satisfaz suas expectativas de realização no próprio país. Como não há um corrida do ouro no Brasil, ainda não testemunhamos movimentos migratórios dessa natureza, mas nossas cidades não passam, hoje, de vastos acampamentos de miseráveis - e aí as formas repressivas surgem para valer. O Rio é um capítulo à parte, por ter uma geografia peculiar, mas, em São Paulo, o problema não é menor. Nos últimos anos, vimos governos rotulados de progressistas tomando medidas repressivas na cidade, o que é espantoso. Construíram muros antimendigos, cercaram parques e desenvolveram projetos ambiciosos de revitalização como esse da "Cracolândia", tudo para separar e excluir. Essas formas de repressão estão aí, à espera. Elas vão se reproduzir silenciosamente, como parte de um movimento malthusiano. Está sobrando gente para o capitalismo.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Folha de S. Paulo
Data:2008-10-19
Autor:Maurício Puls
Comentário Boitempo:
Título:Desindustrialização expulsa esquerda de SP, diz sociólogo
Matéria:Francisco de Oliveira diz que trabalhadores do setor informal em geral votam na direita
A desindustrialização de São Paulo empurrou a esquerda para fora da cidade, sustenta o sociólogo Francisco de Oliveira, 74, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da USP. Segundo ele, a fuga das indústrias da capital paulista converteu a cidade num pólo de serviços com um setor informal muito extenso, cujos integrantes não se identificam com o PT: "Em geral eles votam na direita devido ao imediatismo. É gente que quer receber benefícios imediatos, sem esperar por transformações estruturais". Segundo Oliveira, o Bolsa Família é uma "política conformista" que reflete o predomínio desse "exército informal que representa mais de 50% da força de trabalho".
Na entrevista a seguir, concedida na última terça-feira, o sociólogo sustenta ainda que, ao chegar ao poder, "o PT foi engolido pelo atraso", pois trocou uma política de classe por uma política de combate à pobreza.
FOLHA - Em novembro de 2004, o sr. publicou um artigo na Folha em que dizia que Marta Suplicy foi derrotada pelo governo Lula, pois sua política econômica era indefensável. Hoje Lula tem mais de 50% de aprovação na cidade de São Paulo. Como o sr. explica a rejeição a Marta? A criação das taxas? As políticas sociais do PT? Críticas moralistas?
FRANCISCO DE OLIVEIRA - Um pouco de tudo isso. Em primeiro lugar, naquela época o ataque da mídia ao governo Lula era muito intenso, e Lula não transferiu votos para Marta, transferiu a carga negativa. Agora a situação é a seguinte: a administração de Kassab está muito fresca na memória, enquanto a de Marta já tem quase quatro anos de distância. Isso hoje é muito importante devido à imediaticidade da mídia. É ela que faz a nossa consciência: é uma presentificação absoluta. A distância da administração da Marta esbarra na imediaticidade das avaliações positivas de Kassab. O fato de a avaliação do governo federal ser positiva na cidade de São Paulo não dissolve essa distância da Marta. E São Paulo é uma cidade bastante conservadora. Bastante conservadora. Se você retoma a história brasileira, o populismo paulista sempre foi de direita: Adhemar de Barros, Jânio Quadros, Paulo Maluf.
FOLHA - Ignácio Rangel dizia que o latifúndio gaúcho -Getúlio Vargas, João Goulart- conseguiu representar politicamente a indústria nacional, o que deu origem a um populismo de esquerda, progressista. Mas isso não aconteceu em São Paulo.
OLIVEIRA - Isso nunca aconteceu. Mas não é só isso. Na verdade o que é importante no Rio Grande do Sul é a pequena propriedade, não é o latifúndio: o latifúndio enche nossas mentes, mas não forma... As ideologias populistas nascem no Rio Grande do Sul, mas é importante não esquecer que o Estado conheceu um positivismo muito especial, que é o que influi na legislação trabalhista. Vargas era positivista, a moçada formada nas escolas militares era positivista. Não é a toa que a divisa da bandeira brasileira é "Ordem e Progresso". E São Paulo não teve essa formação.
FOLHA - Mas por que a direita é especialmente forte em São Paulo? Devido à centralidade econômica da cidade, sede de grandes empresas, bancos, associações empresariais?
OLIVEIRA - De fato, a centralidade econômica de São Paulo leva a cidade para a direita. Não é tautológico, mas é um fato.
FOLHA - Mas o PT continua sendo muito votado na periferia da cidade e nos demais municípios da região metropolitana. O sr. acha que a esquerda foi expulsa para fora da cidade -para a região metropolitana?
OLIVEIRA - Foi, é verdade. Esse é um fenômeno político da maior importância. As indústrias saíram de São Paulo. São Paulo não é mais uma cidade proletária: é uma cidade de serviços e de um setor informal imenso, cuja identificação de classe é muito ambígua, muito perpassada pelo fenômeno da sobrevivência. É uma situação de classe muito difícil. São Paulo não é mais do proletariado clássico. Moro num bairro, a Vila Romana, que antigamente tinha várias indústrias. Hoje não tem mais nenhuma, todas foram para outros municípios.
FOLHA - Inclusive é uma área de forte investimento imobiliário.
OLIVEIRA - Forte, muito forte. Não é uma zona rica, comparada a Higienópolis, mas é uma zona de investimentos imobiliários muito altos. E aqui você tinha a Matarazzo, a Saturnia, a Melhoramentos -hoje aqui só ficou o escritório-, a Parmalat... Era uma zona de fábricas, e hoje não tem mais nenhuma. Isso aconteceu com a cidade como um todo. A cidade se desproletarizou na forma clássica e ganhou um enorme exército de trabalhadores informais...
FOLHA - Que em geral não votam na esquerda...
OLIVEIRA - Em geral eles votam na direita devido ao imediatismo. É gente que quer benefícios imediatos, sem esperar por transformações estruturais.
FOLHA - Apesar de sua provável derrota em São Paulo, o PT continua sendo o partido que mais cresceu no país. Em 2004 o sr. escreveu que isso mostrava o envelhecimento de um partido nascido para reformar o país. O sr. ainda mantém essa opinião: o PT foi engolido pelo atraso ou foi o atraso que se modernizou?
OLIVEIRA - Eu acho que o PT, como força transformadora, foi engolido pelo atraso. Qual é a modernização que existe aí? É uma modernização de políticas sociais que são políticas de ajustamento, não são políticas sociais transformadoras -elas se ajustam à realidade. O Bolsa Família é uma política de ajuste, uma política conformista. E isso reflete essa situação um tanto ambígua de uma classe que não é classe, desse enorme exército informal que representa mais de 50% da força de trabalho. Então, o PT foi engolido pelo atraso. A modernização das políticas sociais é uma regressão da classe para a pobreza, enquanto o movimento histórico vai da pobreza para a classe. A extensão das políticas sociais focais é uma regressão da classe para a pobreza: elas são políticas para os pobres.
FOLHA - Os partidos social-democratas de tipo clássico se baseavam em seções territoriais, os núcleos de base. Hoje os núcleos do PT praticamente desapareceram. Essa transformação reflete a conversão de um "partido dos trabalhadores" em um "partido dos pobres"? O PT não é mais um partido social-democrata?
FOLHA - Não, não é. Isso reflete em parte essa mudança e, em parte, é um reflexo da chegada ao poder. Você se profissionaliza porque a gestão do Estado exige a profissionalização. Não é um Estado qualquer: é um Estado capitalista, todo permeado por relações patrimonialistas, mas na maior parte dos casos você tem que gerir dinheiro. E dinheiro não se gere passando a mão na cabeça. O partido profissionalizou-se e burocratizou-se no sentido weberiano -ele tem de tornar a gestão previsível, e por isso se profissionaliza. Isso é em parte o efeito da chegada ao poder, e em parte o efeito da regressão da classe para a pobreza.
FOLHA - Mas o PT ainda tem um vínculo razoavelmente estreito com os sindicatos. O sr. acha que ele se parece hoje mais com o Partido Democrata norte-americano, que ainda está ligado a uma central como a AFL-CIO, do que com os social-democratas europeus, que antes eram estruturados a partir dos sindicatos?
OLIVEIRA - Não, não é mais o modelo europeu. É mais próximo realmente do modelo norte-americano, com algumas particularidades que a legislação brasileira conferiu, devido ao fato de que a influência do Estado na formação da economia levou à formação desses fundos estatais, que eram mecanismos de acumulação, e que estão na maior parte dos casos sob o controle de sindicalistas. É uma transformação da classe.
FOLHA - É aquilo que o sr. tinha descrito no "Ornitorrinco". O sr. acha que o partido hoje é controlado por uma nova classe social?
OLIVEIRA - Eu acho. É uma expressão forte, porque os sociólogos têm muito medo de falar em classe social. Mas é uma nova fração de classe que tem um papel muito importante hoje.
FOLHA - O sr. fala de uma aproximação entre PT e PSDB. Mas o que opõe os dois partidos nas eleições? Qual é a fratura que divide os dois?
OLIVEIRA - A fratura é parecida com a que existe nos Estados Unidos: embora democratas possam ser tão ricos quanto republicanos, essa fratura permanece nos EUA devido a origens históricas diferentes. Isso tem peso. Quem fez a paz no Vietnã foi um conservador. Os democratas não ousavam dar nenhum passo no Vietnã porque apareceriam como traidores. Origens históricas diferentes continuam a pesar, e o fato de que, a partir dessas origens diferentes, eles se inscreveram junto ao eleitorado como alternativas. Mas a aproximação entre eles é tão grande que em Minas tentou-se essa façanha, de eleger um tertius que representasse os dois partidos, PT e PSDB. Essa é a tendência. Mas não ocorrerá de forma absoluta devido a essas raízes históricas diferentes. Mas as diferenças reais são muito pequenas.
FOLHA - Mas, se há uma identidade absoluta, não haveria nenhum fundamento para uma escolha do eleitor. Existiria alguma coisa substantiva além das raízes históricas?
OLIVEIRA - Existe. Ainda há diferenças. Mas do ponto de vista das políticas decisivas elas são quase irreais -as diferenças reais quanto ao rumo da política nacional são quase irrelevantes. Mas eles jamais vão se unir, porque em política a soma não é maior do que as partes, como o caso de Minas revelou: juntaram duas forças que aparentemente iam aplastar qualquer outra. E não resultou.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal Valor Econômico
Data:2009-05-27
Autor:César Felício
Comentário Boitempo:
Título:"Consenso despolitiza sociedade e coloca Lula à direita de FHC"
Matéria: Entrevista: Cientista político eleitor de Lula diz que a disputa de 2010 será esvaziada de política e regionalista
Intelectual historicamente identificado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo sido filiado ao PT até 2003, o professor aposentado de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Francisco de Oliveira tornou-se ao longo do atual governo um dos mais cáusticos críticos à esquerda do lulismo. Para este ano, o acadêmico pernambucano de 75 anos, conhecido como Chico de Oliveira, prepara um livro que irá retratar a construção de uma hegemonia às avessas. Ou seja: como um líder popular carismático trabalharia no sentido contrário aos interesses da base que o elegeu.
No ano em que rompeu com o PT, Oliveira desferiu no front literário um dos mais contundentes ataques sofridos por Lula, ao escrever "o Ornitorrinco", um posfácio ao seu livro Crítica da Razão Dualista, editado pela primeira vez em 1972.
Neste posfácio, Oliveira procurou fazer uma aproximação entre a elite dirigente do PT e a da oposição tucana, que teriam como grande traço de união o controle do acesso a fundos públicos.
Em setembro de 2004, Oliveira participou da criação do P-SOL, formado por dissidentes do PT que discordavam da moderação econômica do governo Lula, particularmente da reforma da previdência. Meses depois, o partido receberia outra maré de adesões de desiludidos com o petismo depois da eclosão do escândalo do mensalão.
Com a eleição de 2006, ocorre um novo afastamento. Oliveira discordou da condução da candidatura presidencial da então senadora Heloísa Helena (AL), sobretudo da decisão da sigla de permanecer neutra no segundo turno da eleição presidencial, e declarou voto pela reeleição de Lula. Chegou a definir a campanha da candidata do P-SOL, calcada nas denúncias contra o governo federal no plano ético, como um "udenismo de esquerda".
No início da crise econômica global, em janeiro deste ano, Oliveira propôs que o governo federal radicalizasse suas políticas de desenvolvimento, sugerindo que se criassem "cinco Embraer por ano", uma maneira de defender a maior participação do Estado na economia. Mas a ausência de mudanças na estratégia governamental ao longo deste ano fez com que o sociólogo voltasse à posição crítica dos últimos tempos.
Nesta entrevista, concedida por telefone ao Valor, Chico de Oliveira demonstra ceticismo em relação a mudanças no quadro político com as eleições presidenciais do próximo ano. Eis a entrevista:
Valor: Qual a avaliação que o senhor faz do governo Lula, já em seu penúltimo ano? O senhor rompeu publicamente com o PT em 2003, mas depois declarou voto pela reeleição de Lula em 2006...
Francisco de Oliveira: A minha declaração de voto em 2006 foi uma atitude política. Lula estava sob ataque de forças opositoras naquele momento e havia a esperança, uma palavra que nem gosto de usar, de que um segundo mandato fosse promotor de mudanças, mas hoje podemos ver que não houve nenhuma mudança e essa chance passou. O governo de Lula, concretamente, não demonstrou nenhum avanço social no plano dos direitos. Do ponto de vista da condução econômica é uma administração medíocre, que pensou que se salvaria da crise global e percebe-se que não tem nenhum domínio da situação. Economicamente o governo Lula é um barco à deriva, que se as ondas forem boas chega a um bom porto, e caso contrário, não.
Valor: Que comparação pode-se fazer com o governo FHC?
Oliveira: Lula está à direita de Fernando Henrique [Cardoso] ao não recompor as estruturas do Estado e não avançar na ampliação de direitos. O presidente tenta se legitimar promovendo consensos que passam pela cooptação dos mais pobres. O Bolsa Família não é um direito, mas uma dádiva. Neste sentido, vivemos na gestão dele uma regressão política, porque no governo Lula houve uma diminuição do grau de participação popular na esfera pública. E quando se projeta o cenário de 2010 percebe-se como Lula resulta regressivo. Com a força perdida pelo PT e a ausência de alternativas de Lula, uma vez que a doença de sua candidata mostra sinais de gravidade, aparece o terceiro mandato.
Valor: O senhor acha que o governo está criando um caldo de cultura para o terceiro mandato?
Oliveira: Sim, porque Lula aparece, para os olhos de determinados segmentos do meio político e popular, como o homem providencial. E neste sentido a possibilidade de um terceiro mandato é perigosa. Getúlio [Vargas] ensaiou isso com o queremismo, em 1945. Agora, pode muito bem surgir um queremismo lulista: o povo ir às ruas para pedir a continuidade do governo.
Valor: E o senhor acha que o povo irá às ruas?
Oliveira: Não digo o povo, uma categoria imprecisa, mas o PT e a CUT ainda têm capacidade para promover barulho, e barulho é o que é decisivo em uma questão como essa.
Valor: Porque no campo da esquerda nem o P-SOL, nem outras siglas conseguiram se firmar como alternativas a Lula?
Oliveira: Nada surgiu porque, ao tornar-se um mito popular, Lula tornou-se infuso à política. Ele produz um consenso de forças sociais, que estão todas muito contentes com o governo, e assim torna impossível ao eleitorado fazer escolhas reais. Isto explica porque Heloísa Helena, apesar do apelo popular que teve e tem, não se tornar uma alternativa. Vivemos um consenso conservador, no sentido de não se transformar nada, mesmo com a presença das massas populares neste consenso.
Valor: Ao romper com o PT, o senhor disse que o partido poderia ter o mesmo destino do peronismo, tornando-se uma força política que não consegue ter referências ideológicas e prende-se ao espólio de uma liderança...
Oliveira: Se fiz esta aproximação, foi um equívoco meu. A mídia brasileira por vezes passa uma ideia equivocada do que foi [Juan Domingo] Perón na Argentina. O Perón não despolitizou o país. Sob o vezo do autoritarismo, em seu período se produziu uma ampliação de direitos tal que a tradicional oligarquia argentina jamais se recuperou. No caso de Lula, está ocorrendo exatamente o contrário, a diminuição do espaço da política na sociedade.
Valor: O governo Lula não investiu na inclusão de minorias nos espaços de poder, por meio de políticas de ação afirmativas para negros e mulheres?
Oliveira: Ele tomou os vestígios de um discurso sociológico fajuto para negar o conflito de classes. Veja, com a análise da questão das classes se mata as charadas no Brasil. Quando a gente pensa a sociedade por meio destas clivagens de gênero e raça, não se mata charada nenhuma. O problema do Brasil é de uma grande maioria, virtual totalidade mulata, e não pode ser resolvido por políticas afirmativas étnicas, diferentemente do que ocorre na Bolívia e na Venezuela, onde a chave étnica é decisiva. Para resolver os problemas de exclusão social no Brasil, é preciso enfrentar problemas de classe. A política de cotas só faz reafirmar a exclusão. Qual as chances concretas que um negro com grau universitário obtido graças às cotas ampliação de direitos combatem a discriminação.
Valor: O senhor analisa o governo Lula como o autor de uma guinada conservadora, mas, com instrumentos como a Carta ao Povo Brasileiro, Lula já não se elegeu sob este signo?
Oliveira: Pelo contrário, Lula foi eleito em um processo de força popular crescente de um movimento político, que acumulou energia de eleição em eleição desde os anos 80. Não foi um episódio que se resume à crônica de 2002, foi um processo longo. Lula foi eleito com uma base progressista. Não houve nenhuma chancela do eleitorado para o que ele faria a seguir.
Valor: Além de sua gestão econômica até certo ponto surpreendente, o primeiro mandato de Lula foi marcado pelos escândalos na área ética, dos quais o do mensalão foi o mais emblemático. Por que a ressonância popular destes problemas foi zero?
Oliveira: Há uma tendência popular de nivelar a todos. Historicamente, a questão ética só estigmatiza políticos de estatura menor, como os exemplos recentes de [Paulo] Maluf e [Orestes] Quércia. Gostaria que tivesse sido diferente, mas este fator jamais foi decisivo em eleições brasileiras e não será na próxima.
Valor: Qual o balanço que o senhor faz da oposição brasileira nestes últimos sete anos?
Oliveira: Que crítica a oposição pode fazer ao governo Lula? Objetivamente nenhuma. Os governadores José Serra e Aécio Neves estão do mesmo lado. Em termos concretos, já há tempos a oposição deixou de existir. Isto porque a política no Brasil perdeu a capacidade decisória.
Valor: Que diferenças o senhor identifica entre Serra e Aécio?
Oliveira: Rejeito ambos por motivos diferentes. Aécio parece mais um político superficial que se faz sob a herança política familiar. Nunca vi uma opinião dele que impressionasse. Serra é uma surpresa. Faz um governo gerencial e até reacionário, ao lidar com o funcionalismo e com a universidade pública. É um político que gradualmente se converteu, quando vemos o passado dele e o local onde atua agora. É o grande líder conservador.
Valor: Sob que signo será disputada a eleição presidencial do próximo ano?
Oliveira: A eleição de 2010 será despolitizada e regionalista. Vejo agora a articulação entre São Paulo e Minas. Antes era o café com leite, hoje talvez seja o café com leite de um lado, a cana e a indústria do outro... a eleição caminha para ser uma disputa entre a confluência de São Paulo com Minas em contraposição à confluência do Nordeste e do Norte. É uma disputa que se dá em termos regionais, sem nenhum ponto político, nenhuma discussão de concepção propriamente política. Ao criar um consenso, Lula foi fortemente despolitizador. É uma dinâmica diferente do tempo de Fernando Henrique. Fernando Henrique buscou subjugar as forças contrárias, Lula as desmobiliza.
Valor: E que papel jogam atualmente os movimentos sociais?
Oliveira: Os movimentos sociais estão apagados, porque tratam-se em sua maioria de articulações em torno de objetivos pontuais, o que tornam limitadas as possibilidades de crescimento. O mais importante deles, que é o MST, busca saídas para a sobrevivência.
Valor: Esta desmobilização política não é um fenômeno global?
Oliveira: Ela é um fenômeno mundial. A França elegeu [Nicolas] Sarkozy, um direitista que se disfarça. Nos Estados Unidos, temos [Barack] Obama, que está recuando de suas posições iniciais. Na Alemanha, Ângela Merkel faz uma conciliação que junta sociais democratas e conservadores. E na Rússia, há um florescer do autocratismo. Todo mundo está convergindo para um ponto médio, que é uma espécie de anulação das posições. Mas no Brasil é mais grave, porque aqui a desigualdade é muito maior.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Estado de S. Paulo
Data:2010-02-28
Autor:Francisco de Oliveira
Comentário Boitempo:
Título:O fim da ditadura
Matéria: O desmoronamento do Democratas com os escândalos do Arrudagate e do quase já consolidado desmascaramento do Kassabgate assinala, felizmente, o ponto final da ditadura civil-militar que formalmente durou até 1985. Como se sabe, o Democratas se originou no bipartidismo imposto pela ditadura, quando Castelo Branco extinguiu os partidos pré-64 e enfiou todos na Arena e no MDB. Na reforma partidária de 1978, o MDB transformou-se em PMDB e a Arena em PFL. Sucessivas operações plásticas o fizeram chegar à atual denominação, que nem sequer guarda o nome de "partido". A diferença entre o sucesso da transformação, no caso do MDB, e o fiasco da Arena é que o segundo não passava de um fantoche da ditadura, enquanto o MDB respondia aos anseios e à vontade política da maior parte da cidadania para sair da "camisa de força" ditatorial. Já em 1980, o PMDB transformado abria a porta para que sua ala esquerda criasse o PT e sua ala social-democrata evoluísse para o PSDB. Partidos menores também puderam ajustar-se ao novo sistema político-partidário.
Todos os partidos fazem parte do novo ciclo de "organizações paraestatais", uma transformação que Gramsci não previu, pois as formas do capitalismo contemporâneo fazem do Estado não apenas o garantidor das condições gerais da produção, mas sua vértebra insubstituível. O barbudo de Tiers também deixou passar a oportunidade teórica de introduzir na sua equação da mercadoria a passagem necessária pelos fundos públicos, mas concedamos que o fenômeno estava apenas em seus começos.
O velho PSD mineiro já sabia que "fora do Estado não há salvação". Essa sentença do anedotário político das raposas mineiras é mais do que certeira nas condições do capitalismo contemporâneo. Onde é que o Democratas não entendeu o recado? Em primeiro lugar, por refugiar-se nos chamados "grotões" que tanto o desenvolvimento capitalista quanto as reformas do Estado e finalmente o assistencialismo do Bolsa-Família liquidaram. Aí o Democratas acreditou que, mudando o nome e dirigindo-se às classes médias urbanas, voltaria a ser protagonista principal e não apenas coadjuvante (um Oscar para ele!). Acreditou que as classes médias urbanas são liberais, não gostam do Estado, e pagam tudo pela liberdade. Não entendeu nada de Brasil, e não leu, certamente, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes. Ficou em Casa Grande & Senzala.
Daí para resvalar na vala comum da corrupção não há uma distância muito grande, sobretudo em Brasília, cidade campeã e emblema do patrimonialismo. Quanto a Kassab, sobreviveu graças à estratégia política do atual governador de São Paulo, que lhe transmitiu o cargo de prefeito , cujos rendimentos ainda lhe deram fôlego para a reeleição. Mas por aí termina. Entendamo-nos: não é que inexista corrupção e patrimonialismo nos outros partidos políticos, principalmente nos dois principais. Mas eles conseguem administrar interesses bem definidos, o que não foi o caso do Democratas. Mas estão também no modelo "partidos paraestatais": a irrelevância do PSDB em certas regiões do País o afirma: aliás os tucanos não são propriamente um partido, mas como no Vaticano, um colégio de cardeais.
Desde o fim da República Velha não há lugar para o liberalismo no Brasil, nem nas periferias capitalistas. O último liberal brasileiro, Rui Barbosa, lutou várias vezes para chegar à Presidência, fracassando em todas elas; é certo que "coronelismo, enxada e voto" - a obra maestra de Victor Nunes Leal - não consentia que um liberal estivesse no topo do Estado. Depois, o Brasil entrou definitivamente - com Vargas, um caudilho gaúcho - na senda da industrialização sustentada no Estado, e então as chances liberais sumiram pelo ralo da indústria e da urbanização acelerada. Os neoliberais tomaram emprestado do avô sua primitiva designação, mas aí a fraude já era evidente, pois mercado nas economias periféricas e no capitalismo contemporâneo só com uma dose cavalar de Estado - que me permita minha querida Maria da Conceição Tavares usar assim de graça seu bordão, e Obama por acréscimo.
O Democratas chegou tarde. É uma pena, pois teriam sido um elemento civilizador no começo do século 20. Já no século 21, é apenas um anacronismo. Não quer isso dizer que desaparecerá, pois a diversidade regional, política, social e econômica do Brasil permite várias formações e agrupamentos de interesses. Mas está condenado a ser satélite - e não é do Banco do Brasil que estamos falando - enquanto o ciclo dos partidos paraestatais não se esgota. É bom para a República que a lição que o Democratas não aprendeu esteja sendo dada em Brasília, antiga capital da esperança. Quem sabe ela volta?
Francisco de Oliveirá é professor emérito da FFLCH-USP, autor de Crítica à Razão Dualista: o Ornitorrinco (Boitempo)
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Revista Aventuras na História
Data:-2010-Nov
Autor:Marcelo Ridenti
Comentário Boitempo:
Título:Obras para entender o governo Lula
Matéria:O ornitorrinco. Francisco de Oliveira. São Paulo: Boitempo, 2003.
Talvez a crítica teórica mais contundente já formulada ao governo Lula. Com base nas suas primeiras medidas, o autor já detectava que uma “nova classe social” estaria representada na administração. Ela seria responsável pela articulação entre os recursos públicos e a iniciativa privada, como no caso da gestão de lucrativos fundos de pensão por antigos sindicalistas.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Zero Hora
Data:2012-06-12
Autor:Luiz Antônio Araújo
Comentário Boitempo:
Título:“Quem comanda as coisas no Brasil é o mercado, não é o Estado”
Matéria:
Ele tem a estatura de Getúlio Vargas
(1,60m), a barba branca de Dom
Pedro II, o acento pernambucano
de Luiz Inácio Lula da Silva e o
grau acadêmico de Fernando
Henrique Cardoso. Quando se trata
de emitir juízos sobre os quatro,
é única e plenamente Francisco
Maria Cavalcanti de Oliveira. Sobre
Vargas: “O único estadista que o
Brasil produziu em seus 500 anos de
existência”. Pedro II: “Era de uma
mediocridade espantosa”. Lula: “É
um farsante, um descendente dos
Bourbons, que não aprendeu nada
nem esqueceu nada dos últimos
50 anos”. FH: “Foi meio papagaio
de pirata (no movimento pela
redemocratização). Não é que fosse
falso nem nada disso, mas estava ali
como eu podia estar”. Aos 78 anos,
expoente da teoria social brasileira,
Chico de Oliveira se compraz em
desafinar o coro dos contentes.
A verve desse professor emérito
aposentado de sociologia da USP
(que, mesmo aposentado, segue
atuando como coordenador
científico do Centro de Estudos
dos Direitos da Cidadania da
instituição) assegurou-lhe um lugar
de destaque no debate público desde
que, em 2003, deixou o PT, do qual
fora fundador. Num país em que
as ideias dificilmente transpõem a
porta do debate político, expôs suas
razões em um ensaio intitulado O
Ornitorrinco.
O título faz referência ao exótico
animal da Oceania, mamífero com
aspecto de ave, usado por Oliveira
como metáfora do Brasil, no qual
convivem avanço e atraso. “Talvez
a crítica teórica mais contundente
já formulada ao governo Lula”,
escreveu a respeito da obra o
professor de sociologia Marcelo
Ridenti, da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp).
Oliveira recebeu Zero Hora no dia 22
de maio por uma hora numa sala
da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP:
Qual será o papel do
Brasil na nova configuração da economia
global?
Francisco de Oliveira – Um papel
secundário. Não porque, como dizia
Nelson Rodrigues, tenhamos complexo
de vira-lata, mas porque você não pode
enfrentar a força de trabalho formidável
que a China e a Índia colocaram
em atividades produtivas. O meu relógio
é certamente chinês, de Taiwan ou
da Coreia do Sul, o seu também. Eles
fizeram um movimento lastreado em
tecnologia. A Índia converteu-se num
escritório mundial, e a China foi por
outro lado, atacou o sistema produtivo
diretamente, juntando uma força produtiva
formidável com salários baixíssimos
e sem capacidade de reivindicação.
Não é um mar de rosas, há conflitos
trabalhistas na China todos os dias,
mas de qualquer forma é uma força de
trabalho domesticada por longos anos
de ditadura maoísta. Eles não estão
interessados em conflito com os Estados
Unidos porque aplicam excedentes
monetários em títulos do Tesouro
americano.
O Brasil não está mais próximo
da China do que do restante
da América Latina, da África e do
Sul e oeste da Ásia?
Oliveira – Está, mas isso não autoriza
essa sigla, Brics (Brasil, Rússia,
Índia e China, designação para o bloco
dos chamados países emergentes).
As proporções entre Brasil, China,
Índia, Rússia e África do Sul são de
uma disparidade espantosa. Só o esforço
de transmitir esse fenômeno
ao grande público é que os junta. O
Brasil está mais próximo de China e
Índia do ponto de vista de ter realizado
transformações enormes, mas
a disparidade com esses países é do
tamanho da distância entre a Terra e
a Lua. A África do Sul fez uma revolução,
porque liquidar com o apartheid
foi uma revolução, mas está muito
longe de constituir algo como os
Brics. Têm muito pouco em comum.
A diferença essencial é que você não
tem uma força de trabalho desse tamanho.
É isso que barateia as coisas.
O Brasil não tem cacife para se medir
com a Índia e a China porque lhe falta
força de trabalho. Temos 200 milhões
de habitantes, a China tem 1,3 bilhão,
a diferença é colossal.
Guardadas as proporções, o
Brasil passou por um processo análogo
aos da China e da Índia, não
em 30 anos, mas em 80, a partir da
Revolução de 1930. Não estamos
ainda vivendo o Ciclo de 30?
Oliveira – Não, não vivemos mais.
Está saindo essa trilogia sobre Vargas
(Getúlio, de Lira Neto). Estou lendo o
primeiro volume, que é muito desinteressante
porque trata dos anos de formação.
É muito sem interesse para o
público brasileiro em geral. Não sou varguista
no sentido ideológico, mas Vargas
é o único estadista que o Brasil produziu
em seus 500 anos de existência.
Dom Pedro II não foi estadista?
Oliveira – Foi nada. Dom Pedro II
era de uma mediocridade espantosa.
A gente não diz isso porque tem uma
reverência. Podia ser letrado e tudo,
mas o que ele fez do ponto de vista de
ativar um país deste tamanho? Nada.
Ele não teve alguma responsabilidade
pelo fato de o Brasil
não ter se balcanizado depois dos
anos 40 do século 19?
Oliveira – Não teve, não. Isso é a
nossa versão piedosa. Na verdade, ele
reprimiu com uma violência que parece
estar fora da história brasileira.
Mas Vargas, que o senhor
qualifica de único estadista do Brasil,
também reprimiu.
Oliveira – Também reprimiu. Essa
é uma história comum no capitalismo.
Se você tirar a Inglaterra, todos os
outros países grandes do capitalismo
se firmaram à custa de uma enorme
repressão, incluindo os EUA, que não
seriam nada sem a cavalaria.
Os governos Lula e Dilma
são declaradamente inspirados no
legado de Vargas.
Oliveira – Dizem isso agora. Antes,
Lula era antivarguista. Ele não sabe de
história um décimo. É um farsante.
O antivarguismo de Lula
não foi influenciado por uma leitura
da história que atribuía os
fracassos da esquerda antes de
1964 a um fenômeno chamado
populismo?
Oliveira – Pode ser, mas só em parte.
Primeiro, porque Lula não é muito
apegado à história. Lições da história,
ele não aprendeu nenhuma. Lula é um
descendente dos Bourbons, que não
aprendeu nada nem esqueceu nada
dos últimos 50 anos. Ele era antivarguista
porque São Paulo é antivarguista.
É uma coisa difícil de entender, e ao
mesmo tempo há uma via de entendimento,
porque a cabeça de São Paulo
foi feita pelo Estadão (o jornal O Estado
de S.Paulo). Houve uma conjunção
perversa do Estadão, do Partido Comunista
– que assimilou o populismo ao
fascismo, o que é um equívoco teórico
e prático enorme, porque o fascismo
foi a exclusão da classe trabalhadora
da política, e o populismo foi a sua inclusão,
por uma via autoritária, mas foi
– e disto aqui (a USP). A cabeça de São
Paulo foi feita assim.
Lula nunca foi de esquerda?
Oliveira – Nunca. Conheço Lula de
perto, ou conheci, porque faz muito que
me afastei. Ele nunca foi de esquerda e
diz isso. Lula foi levado por um grande
movimento nacional democrático, ao
qual a gente dá pouco relevo porque a
esquerda tem mania de reverenciar o
próprio umbigo. Foi o movimento democrático
brasileiro que levou os trabalhadores
para esquerda. Um movimento
conduzido por figuras que davam sono
quando falavam, como Ulysses Guimarães.
Conduzido por Pedro Simon, que
era líder do MDB quando o MDB não
valia muita coisa no Brasil.
O ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso?
Oliveira – Fernando Henrique foi
meio papagaio de pirata, viu? Eu o conheço
bem porque trabalhei com ele
12 anos. Não é que ele fosse falso nem
nada disso, mas ele estava ali como eu
poderia estar. Na verdade, as lideranças
políticas eram outras. Era o que, na
época, chamava-se MDB Autêntico.
Mas a ditadura prendeu
Lula e o enquadrou na Lei de Segurança
Nacional.
Oliveira – E daí? Me prendeu
também, e por isso eu sou herói? Me
prendeu durante 50 dias aqui em
São Paulo, me prendeu durante 50
dias em Pernambuco, e nem por isso
eu liderei coisa nenhuma. Me tratou
não com regalias, como Romeu Tuma
(delegado do Dops de São Paulo em
1980) tratou Lula. Me tratou no paude-
arara, no cacete para eu revelar
coisa que eu nem sabia o que era. Foi
o movimento democrático brasileiro,
isso precisa ser revisto com urgência.
Não foi o sindicalismo, não é verdade.
O sindicalismo tornou-se um símbolo
quando conseguiu penetrar numa
classe que estava vivendo um milagre
econômico e que tinha aumentos salariais
devido a sua auto-organização.
Que não era voltada para o resto da
sociedade, era voltada para ela mesma.
É preciso dizer as coisas pelo
nome delas: Lula não é, nunca foi antiditadura.
Foi levado a ser, foi empurrado
pelo movimento democrático.
Não me refiro ao MDB: o movimento
democrático fomos todos nós que, de
alguma maneira, por atos variados,
nos colocamos contra a ditadura, empurrando-
a no canto da parede.
O senhor escreveu sobre o
Brasil, em 2003: “Espera-se que não
resolva se autoclonar, perpetuando
o ornitorrinco”. O que vai acontecer
com esse bicho?
Oliveira – Vai seguir sendo ornitorrinco.
Não há nenhuma transformação
radical na sociedade brasileira
à vista. Até onde a vista da
ciência social, que às vezes é muito
limitada, alcança. Nenhuma revolução
foi prevista por nenhuma ciência
social, nem pelo marxismo, que é a
mais poderosa delas porque quer exatamente
subverter. Revolução é uma
irupção na história; se fosse prevista,
não ocorreria. O Brasil está acomodado
num patamar de capitalismo, e
ninguém está insatisfeito. Ninguém
reclama mais reforma agrária. Por
quê? Será que nos avacalhamos todos?
Não. É preciso ser materialista
até a raiz. Não se reclama porque, na
sua mesa, a reforma agrária não está
mais. Talvez no Rio Grande do Sul ela
nunca estivesse, mas o Rio Grande foi
exatamente o lugar onde o tema da
reforma agrária foi muito forte. Por
que não está na nossa mesa? Porque
o Brasil é o segundo maior produtor
mundial de grãos e o primeiro exportador
mundial de carnes. Então o
capitalismo venceu no campo. Isso é
o que nós, da esquerda, temos dificuldade
de reconhecer.
O capitalismo fez uma
revolução agrícola sem fazer uma
revolução agrária?
Oliveira – É, o que é muito comum
na história. Foram poucos os países
que fizeram reforma agrária, e onde
houve reforma agrária sem uma força
capitalista por trás foi um fiasco. A
Bolívia fez duas vezes e foi um fiasco.
Os camponeses bolivianos ganharam
terra para queê? Para nada, como dizia
o poeta Ascenso Ferreira, porque a
força revolucionária boliviana estava
aplastada. Vai seguir com esse capitalismo
que aí está. A comparação com
1930 é equívoca, é o oposto de 1930.
Quem comanda as coisas no Brasil é
o mercado, não é o Estado. Parece que
é o Estado porque a imprensa insiste
nisso, mas não é verdade. A Petrobras
não é o Estado. É a sexta ou sétima
maior empresa do mundo. Isso não é
o Estado, ela se rege pelas regras que
fazem dela uma grande empresa. Foi
o Estado brasileiro que deu o monopólio
estatal do petróleo, e com os votos
de quem? Com os votos da UDN
(União Democrática Nacional, partido
de orientação liberal-conservadora, de
oposição a Vargas). A UDN votou pelo
monopólio estatal do petróleo. O projeto
do Partido Comunista admitia a
iniciativa privada. Por quê? Os generais
voltaram da guerra (a II Guerra
Mundial) e viram que um exército
sem combustível não vale nada. A
Petrobras não é o Estado brasileiro.
O Estado brasileiro de vez em quando
tem espasmos. Dilma Rousseff
demite Sergio Gabrielli para poder
botar a pessoa em quem ela confia
lá. Isso é absolutamente irrelevante,
é uma bobagem. Não é o Estado, é o
mercado. O Estado, como a burguesia
brasileira, sempre foi débil. E depois
as coisas estão muito misturadas, a
tal ponto que os trabalhadores estão
interessados no êxito desse mercado,
via fundos de pensão, onde os trabalhadores
são sócios capitalistas. É extremamente
complicado você passar
a linha que separa os bons dos maus,
não tem mais isso. Dona Dilma pode
estrebuchar como quiser, ela não vai
mudar uma vírgula dessa regra, não.
Ela pode até botar aquela mulher
(Maria das Graças Foster, presidente
da Petrobras) na Petrobras que não
muda nada.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:TV Cultura
Data:2012-07-02
Autor:Da Redação
Comentário Boitempo:
Título:Professor emérito da USP falou de política e eleições no centro do Roda Viva
Matéria:
O Roda Viva do dia 2 de julho recebeu o sociólogo Chico de Oliveira, professor emérito da Universidade de São Paulo. Na pauta, estiveram temas da política, as eleições municipais deste ano e a proximidade do início do julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal.
Um dos fundadores do PT, Chico de Oliveira abandonou o partido em 2003. Fez parte do grupo de dissidentes que ajudou a criar o PSOL, com o qual também viria a romper. Autor de diversos livros, foi premiado com um Jabuti em 2004, pela obra Crítica a Razão Dualista - O Ornitorrinco. Para o professor, "O ornitorrinco é um fracasso de Darwin" e por isso pode ser comparado ao Brasil, que alcançou a modernidade, porém ainda vive em atraso – “uma necessidade de como o país foi formado”.
No período de ditadura militar, Chico foi torturado em São Paulo e preso em Pernambuco. O esquerdista defende que os que cometeram crimes devem ser julgados e afirma que sabe quem foram os seus torturadores. Durante o programa, Chico citou o nome de dois delegados. Assista a entrevista na íntegra e veja a declaração.
O sociólogo diz que o Estado tem que ir atrás dessas pessoas e que se a Comissão da Verdade quiser o seu depoimento ele está disposto a falar. “A minha tortura não vale um tostão, só vale se foi sofrida em nome da liberdade”, declarou ainda.
Chico que participou efetivamente de partidos políticos, hoje afirma que não tem interesse em fazer parte do meio governante. “Eu não sirvo a nenhum governo. Não quero nada com o Poder, estou sempre contra ele”.
Além de criticar o governo, Chico fez declarações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Lula é muito mais esperto do que vocês pensam. O Lula não tem caráter, ele é um oportunista”. O sociólogo defende que Lula não liderou greves dos metalúrgicos. “Se ele quiser, que me processe. O Lula é uma vocação de caudilho, a ante-sala do ditador”.
Para o professor, a diminuição da pobreza é a parte fundamental de um governo de esquerda, mas não foi o Lula que fez. “Essa condição de benefícios sociais vem desde José Sarney”.
Sobre Fernando Henrique Cardoso, Chico disse o presidente se esqueceu do que o sociólogo sabia. “FHC foi de esquerda e foi até do Partido Comunista. Ele resolveu mudar porque decifrou que no Brasil ninguém chega ao poder sendo totalmente de esquerda”.
Já sobre Dilma, ele questionou se ela tem feito mesmo um governo de esquerda e disse ainda que a presidenta não consegue governar porque “Lula não deixa”.
O Roda Viva é apresentado pelo jornalista Mario Sergio Conti e, para esta edição, contou com os seguintes entrevistadores convidados: Ricardo Noblat (jornalista, Blog do Noblat), José Márcio Mendonça (jornalista e editor do blog A Política Como Ela É, articulista do jornal Diário do Comércio de S. Paulo e editor da coluna "Política e Economia na Real" no site Migalhas), João Gabriel de Lima (redator-chefe da revista Época), Liliana Lavoratti (editora-chefe do jornal DCI) e Ivana Jinkings (diretora da Boitempo Editorial e editora da revista Margem Esquerda, de estudos marxistas). O Roda Viva também teve a participação do cartunista Paulo Caruso.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Revista Brasileira de Ciências Sociais
Data:2005-02-01
Autor:Leonardo Mello e Silva
Comentário Boitempo:
Título:Dois clássicos em um
Matéria:
Francisco de Oliveira, Crítica à razão dualista/O ornitorrinco. São Paulo, Boitempo, 2003. 150 páginas.
A "Crítica à razão dualista" é um ensaio de 1972,[1] que reaparece em 2003 em livro, juntamente com outro ensaio, chamado "O ornitorrinco". O primeiro é um clássico da ciência social brasileira; o segundo, embora menos espichado no tamanho, caminha para o mesmo destino. A junção desses dois trabalhos deu ensejo a uma nova publicação, a cargo da editora Boitempo, permitindo ao leitor uma espécie de balanço de trinta anos transcorridos entre o diagnóstico dos impasses do desenvolvimento brasileiro e a deriva dessa trajetória truncada, desembocando em um cenário de barbárie e opulência que está muito bem representado na capa do livro, com a foto da avenida Luis Carlos Berrini, em São Paulo, ícone da modernidade capitalista do país e espécie de "nova Avenida Paulista", vista pela lente da favela que lhe está justo em frente, separados – favela e avenida – pelo nauseabundo rio Pinheiros. Essa imagem traduz bem o alcance dos dois ensaios aqui reunidos porque, no fundo, eles são uma reflexão sobre as desigualdades de base que atravessam a sociedade brasileira desde pelo menos o pós-1930, passando pela consolidação da estrutura industrial, que fecharia o ciclo da modernização capitalista do século XX, no período conhecido como milagre econômico (1968-1974) – última onda de crescimento duradouro da economia brasileira antes das chamadas "décadas perdidas" dos anos de 1980 e 1990 –, e que mostram os seus efeitos por meio da estagnação, do desmanche de instituições regulatórias, da desintegração do tecido social e da violência. O conjunto formado por esses dois trabalhos é, assim, maior do que a pretensão de origem – especialmente no que tange à "Crítica à razão dualista", que se propunha um balanço da produção intelectual sobre o subdesenvolvimento (o que incluía a literatura econômica, mas não só; a sociologia, a ciência política e a filosofia também foram convocadas), levando o autor a um confronto crítico com a tradição estruturalista do pensamento da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), assim como com as correntes da "dependência" que então circulavam no meio acadêmico. Desse modo, ao fincar a análise do presente de então (início dos anos de 1970) a uma consideração do passado, Francisco de Oliveira terminou por acertar o passo de nossa dialética da entrada na modernidade capitalista, cuja marca, explicitada já no primeiro capítulo do ensaio, pode ser descrita como sendo o "uso" que o setor moderno da economia faz do setor "atrasado", cravando uma unidade contraditória, mas funcionalmente operante, contra a interpretação dominante que via antagonismo e incompatibilidade entre os dois setores ou "pólos". Na fórmula que a partir de então ganhava uma feição sistemática e demonstrada, o pólo dinâmico servia-se do pólo atrasado para desenvolver-se, e tal achado vai se incorporar como uma aquisição intelectual que semeará as outras disciplinas e áreas das ciências sociais no Brasil – incluindo aí os estudos culturais e a literatura.[2] Pesquisas sobre o empresariado nacional e as raízes de um pensamento liberal (ou a ausência dele) na formação da modernidade brasileira; as contradições de uma modernização social e econômica levada a cabo por um Estado Corporativo, assim como a oscilação dos sentimentos de desfaçatez e mal-estar entre as elites oligárquicas diante da realidade da escravidão, levando às famosas "idéias fora do lugar",[3] tudo isso são desdobramentos da temática do lugar do moderno e do atraso, esboçada com precisão no ensaio da "Crítica".
Quando o diagnóstico transita para o campo sociológico, é a estrutura social que se desvela no arranjo entre coronéis e empresários, ofuscando uma suposta clareza que oporia burguesia nacional e setores agrário-exportadores, ou, mais contemporaneamente, capital financeiro e capital produtivo. Do lado do trabalho, essa mesma estrutura social vai encontrar o setor "informal" alimentando a superexploração da parcela assalariada da força de trabalho, catapultando a acumulação que não se faz (apenas) pelas vias "clássicas" do conflito entre as classes do capital e do trabalho. No texto, fica aberta ademais a hipótese de que essa não seja uma característica somente "nacional", sendo o amarramento particular entre "moderno" e "arcaico" um traço talvez estrutural do capitalismo realmente existente e mesmo de outros modos de produção. Dessa forma, o mergulho fundo na análise de uma situação concreta – a formação do modo de produção de mercadorias num país periférico –, tendo por baliza a desconstrução da noção de "dualidade" (onde o atrasado é o "pré-industrial" e o moderno, o "industrial"), não deixa de ter, indiretamente, um olhar voltado para a comparação com outros casos, em outros contextos, o que dá um sentido inadvertidamente pouco provinciano ao ensaio: da mesma forma que, em analogia talvez ousada demais, possa se falar da universalidade do romance machadiano ao resolver literariamente, mediante uma forma artística ímpar, o paradoxo contido na convivência entre discurso universal da burguesia esclarecida e dependência econômica associada com manutenção de estruturas sociais eticamente condenáveis na figura extremada do trabalho servil (o "ponto nevrálgico por onde passa e se revela a história mundial", nos dizeres de R. Schwarz [4]), quem sabe possa se entrever aqui, na recapitulação crítica do pensamento econômico latino-americano (a formulação cepalina) um lampejo de atualização do desenvolvimento desigual e combinado de uma maneira geral. Como se vê, as implicações vão muito além da economia ou da sociologia strictu senso e inserem-se no campo mais vasto do que se poderia designar, à falta de um termo melhor, como "estudos sobre a modernidade brasileira".
"Crítica à razão dualista" está dividido em seis capítulos: no primeiro, "Uma breve colocação do problema", é apresentada a questão do desenvolvimento e os quadros gerais de sua insuficiência teórica, segundo o autor. No segundo, "O desenvolvimento capitalista pós-anos 1930 e o processo de acumulação", o período que se estende até os meados dos anos de 1950 com o Plano de Metas de JK é caracterizado como o de "destruição" das antigas bases da acumulação que se assentavam na extroversão, simultaneamente à "criação" das condições para um desenvolvimento endógeno, entre as quais está a força de trabalho assalariada industrial, forjada sob o predomínio do populismo, o que permitiu dessa forma a estabilização de um dos fatores essenciais para pôr em marcha o processo de expansão urbano-capitalista. O juízo sobre o papel da legislação trabalhista nesse processo tornou-se determinante pela forma com a qual repôs a problemática da reprodução da força de trabalho e do exército industrial de reserva como uma das modalidades de "fundo público" da acumulação. As outras modalidades (mais reconhecíveis) são: a arbitragem de subsídios e de isenções fiscais entre setores, além do próprio investimento em infra-estrutura. Aparece aqui também o papel da agricultura como financiadora do excedente para inversão de bens de capital e intermediários, por meio do trabalhador do campo – ou camponês –, que acaba por fornecer as condições para uma verdadeira acumulação originária, mediante a redução do custo de reprodução da força de trabalho nas cidades. Nessa altura, que é um dos pontos altos do ensaio, o autor chama a atenção para a unidade de processos sociais que pareciam se desenvolver de maneira estanque, tais como a diminuição dos preços dos gêneros alimentícios vegetais da lavoura e o aumento da taxa de lucro na indústria. A prescindibilidade do setor agrícola ou rural em relação ao setor moderno no âmbito do consumo ganha um outro feitio, oposto, quando se analisa do ponto de vista da produção: nesse caso, o moderno aumenta mais ainda a sua taxa de lucro, o que explica a tendência à concentração da renda. Os limites da explicação da industrialização pelo processo de substituição de importações são também abordados, conduzindo a questão para as variáveis internas (mais-valia absoluta e relativa). Ainda nesse capítulo vamos encontrar a discussão sobre o terciário "inchado" e a indicação de que informalidade e acumulação formam um conjunto coerente: os serviços, em aparência improdutivos (por exemplo, serviços pessoais, os quais chamaríamos hoje de "atividades por conta própria"), na verdade encontram seu dinamismo nos períodos de maior expansão da economia, capitaneado pelo setor secundário (industrial) – à época, os debates acerca da associação entre urbanização e marginalidade raramente apresentavam o problema dessa maneira.
O terceiro capítulo, sobre a revolução burguesa no Brasil, marca a consolidação de um padrão econômico que, depois dos anos de 1930, passa a ter como característica central o fato de que o sistema se repõe a partir dele mesmo, sem o impulso necessário de "fora"; em outras palavras, trata-se da famosa endogenização das condições de acumulação. O quarto capítulo, cobrindo o período desenvolvimentista e da abertura ao capital estrangeiro com incorporação de tecnologia, vai trazer à compreensão do arranque industrializante e da formação de um mercado interno os dados que deslocam da economia para a política as razões do sucesso da empreitada: as famosas querelas entre cientistas políticos sobre o caráter da Revolução de 30 são recolocadas magistralmente em poucas linhas, quando fica nítido que os constrangimentos externos são processados pelas relações internas de classe, e o atamento desse interesse com o interesse da "nação", em uma verdadeira operação de hegemonia. Os índices mais determinantes a partir de então para se entender o sucesso do modelo passam a ser internos, como o valor do salário mínimo e a relação entre salário real e produtividade, assim como entre salário real e custo de reprodução da força de trabalho urbana (p. 78), ambos os indicadores fornecendo o parâmetro para a taxa de exploração do trabalho, variável decisiva do período. O capítulo cinco analisa a vaga pós-1964, decifrando o papel jogado pela concentração de renda na totalidade coerente da economia brasileira. Finalmente, o capítulo seis retoma as considerações anteriores e demonstra a não-incompatibilidade entre a junção particular e específica do velho e do novo na formação brasileira, por um lado, e, por outro, a "fuga para a frente", representada pela continuidade do processo de acumulação. Estava anunciado o bicho.
"O ornitorrinco" é já de uma fornada mais recente. Nesse texto, o foco originário da "Crítica" radicalizou-se no sentido de aprofundar o impasse civilizatório do "moderno", conduzindo o leitor até o cenário do século XXI, em que impera o desmanche e o fracasso daquele projeto, que é o projeto do desenvolvimento da periferia. Desse modo, "O ornitorrinco" é também a narrativa de uma ruptura. Ruptura com as esperanças do desenvolvimento, entendido como processo de integração ou de estabilização de uma trajetória de acumulação de expectativas. Em outros termos, a destruição de lugares sociais a partir dos quais se teciam projetos de mobilidade e transformação de posições de grupos e classes. Se a crítica da dualidade já mostrava a sobreposição do moderno e do arcaico, um dos pólos (o campo ou a cidade, por exemplo) ao menos fornecia uma espécie de porto-seguro para as estratégias sociais de "aposta": o migrante que se estabelecia no Sudeste usava a base do capitalismo industrial mais avançado para uma acumulação primitiva para si e para o resto da família que ficou no Nordeste, enquanto essa última contava com a longa duração da desigualdade econômica e do poder absoluto dos proprietários de terras para ir construindo também a sua própria referência e suas escolhas, a saber, acompanhar os que partiram ou ficar e rebecer os que fracassaram "em São Paulo", mesmo à custa das opressões de sempre. Quando as transformações do neoliberalismo de hoje arrasam as relações de interdependência conhecidas entre o moderno e o arcaio, conduzindo-as a um novo patamar, destróem os portos-seguro de antanho, sem apontar para a construção de novos, devido ao terreno de enorme indeterminação no qual está assentado. Assim, a pequena propriedade ou o pouco da terra que sustentava uma família é expulsa pelo agro-negócio; o desemprego e a reestruturação produtiva minam o sonho de um destino baseado na relação salarial de tipo fordista, e as privatizações e as reformas no serviço público eliminam uma fonte importante de absorção e sedimentação estamental para as classes médias. De todos os lados de onde se vê, o "desenvolvimento" é hoje um pálido simulacro do projeto que constava da agenda da literatura sociológica brasileira e latino-americana dos anos de 1960 e 1970, mesmo na dissecação que já lhe havia dedicado a "Crítica" de 1972.
Isso é expresso na atualidade, entre outras coisas, tanto pelo drama da violência social "privatizada" (pobres em guerra contra pobres), como por uma espécie de demissão das burguesias com qualquer plataforma nacional – o que fica patente com a fase atual de financeirização e globalização econômica. Essa situação seria o resultado de dois processos negativos que se sobrepõem: primeiro, a não resolução – nos termos da antiga teoria do desenvolvimento – dos impasses estruturais da modernização em um país latino-americano; e, segundo, a vinculação imediata, pelo lado das empresas, com o ciclo da terceira revolução tecnológica de base microeletrônica, que leva à economia de postos de trabalho e a escalas de investimento (inclusive em conhecimento) impensáveis para os países periféricos. O ornitorrinco, que é uma metáfora de um ser malformado, a meio caminho da evolução, não vê mais saída – do tipo daquela que era anunciada, à guisa de programa, nas palavras finais da "Crítica" de 1972: "apartheid ou revolução social". O apartheid virou condição naturalizada de um estado de exceção (convivendo, aliás, perfeitamente com as instituições democráticas) que se vai reproduzindo como regra e fagocitando as promessas de mudança. Nesse mau agouro para os cidadãos e cidadãs do Brasil, um desafio para as ciências sociais.
Notas
[1] A economia brasileira: crítica à razão dualista, Petrópolis, Vozes/Cebrap, 1981. Publicado originalmente em: Estudos Cebrap (2), 1972. [2] Não à toa, a atual edição suprimiu do título a expressão "a economia brasileira", presente na primeira edição. Reconhecimento do caráter nem tanto assim especializado e mais interdisciplinar da obra. [3] Roberto Schwarz, Ao vencedor as batatas, São Paulo, Duas Cidades, 1977. [4] Idem, pp. 23-24.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Revista Outubro - Resenhas
Data:2012-08-28
Autor:Deni Ireneu Alfaro Rubbo
Comentário Boitempo:
Título:Hegemonia às avessas
Matéria:
Tudo começou com uma “provocação gramsciana”. O objetivo: empenhar-se em avançar até a atualidade mais melindrosa para, assim, desvelar uma nova forma de dominação em marcha e suas tonalidades próprias, cuja maior expressão encontrar-se-ia a partir de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva era empossado no cargo de presidência do país. Nascia, então, um instigante ensaio intitulado “Hegemonia às avessas”, assinado, então, pelo renomado sociólogo Chico de Oliveira. A provocação não foi em vão. Logo, um punhado de estudiosos juntou-se nessa empreitada com a finalidade de compartilhar, aprofundar e, ainda, problematizar os grandes enigmas que circundam a situação social contemporânea nacional e internacional. Nesse sentido, a tarefa do livro assenta-se, antes de qualquer coisa, em uma tentativa provisória, aberta e crítica de “esboçar uma possível solução para o enigma” (p. 7), como bem salienta Ruy Braga na apresentação do livro, do qual é organizador ao lado de Chico de Oliveira e Cibele Rizek.
Em outubro de 2008, o Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (CENEDIC), vinculado à Universidade de São Paulo, promoveu um Seminário Internacional sobre o tema, do qual se originou o projeto do livro. Com o apoio financeiro do CNPq, tal trabalho comporta, em linhas gerais, um conjunto de leituras e ensaios desiguais, redigidos por dezenove pesquisadores, nacionais e estrangeiros, que versam sobre temáticas múltiplas e a partir de ângulos diversos. Dividido em cinco partes – 1) os ensaios sobre a hegemonia de Oliveira e Carlos Nelson Coutinho, 2) o mundo do trabalho, 3) as metamorfoses da cultura e da cidade, 4) a situação social da América Latina e da África do Sul e 5) a atualidade socialista –, o livro tem como unidade nuclear a compreensão tanto geral quanto particular do chamado desmanche neoliberal e da esterilização das forças sociais organizadas em movimentos.
Com o suporte teórico e analítico do marxista sardo Antonio Gramsci, Oliveira e Coutinho apresentam suas hipóteses acerca da hegemonia “lulista”. Oliveira detecta uma nova face de dominação – anunciada provavelmente na África do Sul, via Mandela [1] – que estaria em curso no Brasil no início do século XXI: durante o governo Lula, os “de baixo” exerceriam doravante a liderança moral e intelectual do país, enquanto os “de cima” exerceriam a dominação material, ou seja, operando livremente o exercício da lógica de valorização e acumulação financeira. O mais dramático e decisivo, segundo Oliveira, seria que, ao incorporar parte das exigências históricas dos “de baixo” em políticas de renda compensatórias e com uma diminuição incontestável da pobreza absoluta [2], ao mesmo tempo o lulismo cumpre religiosamente com os compromissos da dívida pública e com os interesses dos credores do sistema financeiro, de modo a conservar o Brasil no panteão dos países mais desiguais do mundo. Haveria, ainda, nessa dialética da passivização, um componente decisivo: aquele que culmina no bloqueio da ação política emancipatória desses regimes políticos “sociais-liberais” que o Brasil representa e consolida. Nessa notória encruzilhada de “toma lá e dá cá” com o governo, não foram poucos movimentos, associações, organizações populares que ficaram subsumidos ao monitoramento do Estado, retirando-se integralmente da ação política e “sequestrados” na luta institucional. Essa troca de postos, como se pode perceber, não estaria apenas reduzida a uma inversão mecânica, na suposição falaciosa de que “nada mudou”, ou ainda, na insuficiência analítica de restringir uma avaliação com os oito anos de Fernando Henrique Cardoso: “Hegemonia às avessas”, bem como o texto que encerra o livro, “O avesso do avesso” – uma espécie de segundo round do primeiro ensaio – expressam uma novidade acerca do lulismo em um país de ornitorrincos [3].
A economista Leda Paulani, por seu turno, assinala que, durante um longo tempo na história social do Brasil, sempre se anunciou para o país um estado de emergência econômico em nome de não perdermos o bonde da história. Ora, para atingirmos o futuro prometido, haveria a necessidade de ajustar ou trocar alguns parafusos mal postos em virtude dos erros de governos anteriores ou de reações inesperadas da política econômica externa, transformando a situação social brasileira em um verdadeiro estado permanente de exceção, na canônica expressão benjaminiana, em que o rompimento das regras (econômicas) não seria exceção, mas a própria regra. O governo Lula, tal qual afirma a autora, seria a decretação definitiva desse veredicto: para o país se livrar de uma vez por todas do espectro do subdesenvolvimento, seria preciso, afinal, alguns “sacrifícios”, como, apenas para ficarmos em um exemplo, a permanência do cargo do presidente do Banco Central, em 2004, após um montante de denúncias de sonegação fiscal e falsidade ideológica pelo Ministério Público: “com tudo isso foi se consolidando o estado de emergência em nome do qual tudo se justifica e legitima” (p. 125). Há uma íntima relação, desse modo, entre hegemonias às avessas e o estado de exceção permanente.
Em seguida, o texto “Hegemonia da pequena política”, assinado por Coutinho, não seria o oposto do insight de Oliveira. Ele avança como complemento e enriquecimento do primeiro. Nestes termos, a hegemonia da pequena política atuaria como dominante na vida social atual, expressando-se na influência, através de aparelhos ideológicos, sobre uma determinada concepção de mundo, assentada em certos valores que difundem a intensa naturalização de relações – sociais, políticas, culturais – que são, na verdade, naturalmente históricas. Esse processo, segundo o autor, ocorreria através do consenso passivo, alterando, desse modo, a concepção política na atualidade. A pequena política – que Gramsci denominou “política do dia a dia, política parlamentar, de corredor, das intrigas” – fica aprisionada ao senso-comum, passando a ser vista pelas lentes da sociedade civil não como espaço de luta, próximo das necessidades e anseios das classes subalternas, mas, pelo contrário, um espaço distante, autônomo, exterior, entre decisões políticas e práticas sociais. Em lugar do modelo de pressão social ou prática do conflito (a “grande política”), a política se reduz a uma eterna “disputa de elites”, como no modelo “norte-americano”, em que os partidos protagonistas “defendem um mesmo projeto hegemônico de sociedade” (p. 41), restando à concepção política a sonolenta discordância entre qual melhor e mais eficiente gestão e administração, “nas quais nada de substantivo está posto em questão” (p. 32). Daí a despolitização generalizada da política, pois, afinal, como bem afiançou Gramsci, “é da grande política reduzir tudo à pequena política”.
No rol das grandes tragédias do Brasil, que se iniciava no governo de Cardoso, mais um retrocesso: capitula-se melancolicamente, então, a favor do “menos pior”, pois, no final das contas, são todos “farinha do mesmo saco”. Desautorizando chamar os traços essenciais da contemporaneidade de revolução passiva, isto é, de uma correspondência de aspectos simultâneos de restauração e renovação – e aqui, atenção, reside a precípua divergência entre Oliveira/Braga e o introdutor de Gramsci no Brasil –, Coutinho trabalha com a hipótese de uma contrarreforma na época neoliberal: segundo o autor, estaríamos diante de uma “tentativa aberta” de eliminação dos direitos sociais conquistados em tempos pretéritos, conquanto ocorram declarações correntes, por parte dos neoliberais, sublinhando a importância das políticas sociais em face às vicissitudes dramáticas do próprio modelo econômico que defendem. Para Coutinho, “o que caracteriza um processo de contrarreforma não é a completa ausência do novo, mas a enorme preponderância da conservação (ou mesmo da restauração) em face das eventuais e tímidas novidades” (p. 38).
No tocante ao universo social do trabalho, reservado à segunda parte do livro, a precarização/flexibilização do trabalho alastrou-se inexoravelmente na época contemporânea, principalmente nas atividades no setor informal e no trabalho temporário no setor formal, agravando radicalmente a relação de emprego, que se transformou em um permanente estado de incerteza e insegurança e retirou, desse modo, os direitos sociais conquistados pelos trabalhadores, como podemos notar nas análises de Leonardo Mello e Silva e do sociólogo americano Arne L. Kallerberg. Mas ainda: tais metamorfoses na morfologia do trabalho implicaram diretamente na queda vertiginosa da contestação política dos movimentos e organizações sociais. O francês Yves Cohen, por seu turno, traça um interessante estudo comparativo sobre as performances industriais no Ocidente capitalista e no Oriente socialista, particularmente, o trabalho taylorista no regime soviético, apontando que o caminho distinto que este último ocupou em relação ao primeiro não apenas ficou circunscrito às questões técnicas, mas, e acima de tudo, por razões políticas da época.
Sob o ângulo da cultura geral e da arquitetura, o custo da época da servidão financeira parece ter sido detectado precisamente no testemunho do marxista americano Fredric Jameson, amplamente citado no texto de Maria Elisa Cevasco, quando sentencia que o tempo presente ancora-se em “uma certa debilidade de nossa imaginação” (p. 137). No que tange às dimensões construtivas e sociais arquitetônicas e às investidas de um novo planejamento de urbanização e habitação das cidades, elas estariam alinhadas, em medidas crescentes, à financeirização do capital. Um dos agravantes materiais disso são as inúmeras comunidades atingidas e despejadas de forma autoritária pelos governos, aglomeradas nas margens das cidades, assim, escamoteadas, em lugar dos megaprojetos que são “expansão da estética das aparências”. No plano do capital simbólico, cultura, espaço e finanças fundem-se de tal maneira que, como podemos notar nos argumentos de Pedro Fiori Arantes, a imagem estética transforma-se em seu verdadeiro “ativo financeiro” por meio da “renda monopolista da mercadoria”, definida doravante na produção da exclusividade, infundindo na imagem estética um significado sui generis, autorreferencial, pois “seu desejo não é mais de seriação e massificação, mas de diferenciação e exclusividade” (p. 164). Na contramão dessa história geral da cultura do horror dos vencedores, é absolutamente pertinente chafurdar, no plano estético, nos meandros daqueles que não cederam às armas da crítica. É o caso do artista plástico Antônio Dias, tônica do instigante artigo de Luiz Carlos Martins, no qual os trabalhos de Dias intersecionam os “domínios que a divisão social do trabalho e a reificação geral dos processos cognitivos” marcam, com ironia e inversão, a colonização do eu no contexto da hegemonia do capital fictício.
No meio do furacão da crise contemporânea e nas transformações políticas nos últimos anos, América Latina e África do Sul, regiões examinadas na penúltima parte do livro, tornaram-se imprescindíveis para uma percepção geral do quadro geoestratégico que se forma em meio à encruzilhada do tempo-espaço pré e pós desmanche neoliberal. Nesse sentido, conforme as pesquisas de Ary Cesar Minella, a penetração e incentivo do capital privado nessas regiões, mais notadamente nos países latino-americanos, dar-se-ia em meio às redes transassociativas de organizações e associações empresariais que, mesmo sendo entidades juridicamente privadas – no caso, a Center for Internacional Private Enterprise (Cipe) e Nacional Endowment for Democracy (NED), que são o estudo de caso do autor –, seriam sustentadas com recursos governamentais “com o objetivo de não apenas renovar a ordem capitalista no continente, mas também desenvolvê-la conforme os interesses estratégicos do governo e das empresas dos Estados Unidos” (p. 278). Certamente, o espaço que ocupam essas associações, não raramente instadas a “melhorar” o crescimento crônico da pobreza, contribui para frear as políticas contestatórias e anestesia-las em nome da “democracia do livre mercado”.
Em conexão a isso, a hipótese de Carlos Eduardo Martins, apoiada amplamente nas fartas teorias e nas premissas metodológicas de uma teoria do sistema-mundo, assevera que o desenho da conjuntura atual está equacionado na combinação de três elementos de longa duração, quais sejam: a “mundialização da revolução científico-técnica”, “crise de hegemonia dos Estados Unidos” e o “ciclo expansivo de Kondratiev” (p. 247), isto é, ondas que duram meio século e que tendem a deslocar a acumulação para o setor financeiro. A geopolítica latino-americana imersa nessas determinações alterou suas forças sociais e políticas no limiar do século XXI, gerando, como atesta Martins, governos heterogêneos ou exclusivamente neoliberais (México e Colômbia), ou de terceira via (Brasil, Uruguai e Chile) ou neonacionalistas (Bolívia, Equador, Paraguai e Venezuela). Neste último país, o artigo de Gilberto Maringoni dedica-se à figura de Hugo Chaves nomeando sua atuação de “populismo progressista”, que corresponderia não a uma vontade de sê-lo, mas, ao revés, a “uma adaptação às condições objetivas encontradas” (p. 296). Em seguida, os dois textos regidos sobre a situação social da África do Sul, de Patrick Bond e, principalmente, do sociólogo moçambicano José Luis Cabaço, reconstroem a trajetória do país, cujas “feridas abertas do colonialismo” estão profundamente marcadas pelo “conflito de classe intraracial”, isto é, na relação orgânica entre classe e raça, expressada no país africano antes, durante e depois do regime de apartheid. Eis aqui o paralelo dramático do Brasil e África do Sul. Mesmo com o “fim” do apartheid e a vitória de Nelson Mandela na sua luta de “supressão do estigma colonial”, o governo sucumbiu “à sedução das mordomias e das oportunidades individuais que sua posição lhes proporciona” (p. 334), restando apenas à nostalgia do mito (que, diz Chico, é antipolítico por excelência) imerso num espaço de proliferação dos guetos de Joanesburgo, expressões dessa capitulação.
De fato, é preciso mais do que nunca a tarefa de reabilitar o comunismo e retornar à estratégia da (grande) política. Como bem ilustra Álvaro Bianchi (p. 339-350), na parte que encerra o livro, na trágica história do século XX, as palavras que deram nome à emancipação não passaram incólumes às tormentas do passado. A práxis, por exemplo, conforme os argumentos de Wolfgang Leo Maar (p. 351-368), e nas circunstâncias históricas do presente, foi reduzida a uma prática praticada, perdendo por completo o seu potencial crítico e transformador. Tornou-se, então, a prática política, sinônimo absoluto de uma práxis gerencial e/ou administrativa. Em uma palavra: o eclipse da razão política. Mas, dentre todas elas, a palavra comunismo foi a mais prejudicada. Afinal, segundo a constatação de Bianchi, foi o comunismo que sofreu a pesada condenação de ser a continuação inevitável de uma forma totalitária – o stalinismo e todas as suas caricaturas –, passando a ser referendado como um estado burocrático e autoritário, distante dos sonhos dos “de baixo”. Para reencontrar o comunismo da emancipação, é preciso, pois, distinguir “aquilo que dá nome à emancipação e aquilo que dá o nome à sujeição” (p. 349), marcando, assim, a profunda descontinuidade entre essas duas coisas, submetendo-as no tempo das provas históricas a que foram sujeitadas.
Diante desse quadro provisório, suficientemente dinâmico para criar uma inteligibilidade crítica do tempo presente, o livro insere-se na perspectiva de trazer mais perguntas do que formular respostas, ainda que algumas vezes o faça para muitas questões que, a bem da verdade, estão em processo. Ao mesmo tempo que se dá um passo crítico na decifração das múltiplas facetas da “esfinge barbuda”, que parece escapar sempre aos lugares-comuns sociológicos, assim como o empenho em esquadrinhar as tensões sociais no mundo atual, impõe-se a urgência de novas análises em tempos em que a crise capitalista desfaz as certezas do pensamento dominante. Estamos definitivamente diante de um livro de grande monta, cuja bravura deverá ser francamente debatida por muito tempo. Afinal, é pelo menos o que se espera daqueles que, como Gramsci, invocam o “pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
Deni Ireneu Alfaro Rubbo é mestrando em Sociologia pela USP.
Referências Bibliográficas
ARANTES, Paulo Eduardo. A fratura brasileira do mundo. In: Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, p. 25-77, 2004. OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do lulismo, Novos Estudos, São Paulo, n.85, 2009, p. 83-102, 2009.
Notas
[1] A ficha caiu quando o sociólogo pernambucano assistiu a “Infância roubada”, filme sul-africano ao qual se outorgou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005 e que denunciava que, mesmo com a vitória de Nelson Mandela, a miséria e a exploração persistiam claramente no país.
[2] Distanciando-se da hipótese de Oliveira, o cientista político André Singer (2009), em um artigo recente, postula que as ações governamentais – aumento do salário mínimo, expansão do crédito popular, aumento da formalização do trabalho, a implantação da Bolsa Família – não constituiriam apenas uma simples “ajuda” aos pobres, mas, ao contrário, um realinhamento político (eleitoral) de uma certa fração de classe, que, segundo o autor, alteraria substancialmente a dinâmica das classes sociais na semiperiferia do capitalismo. Para avançar nesse projeto, o “lulismo” misturaria, então, elementos da direita e da esquerda em um programa de “combate a desigualdade dentro da ordem”.
[3] Em outro momento, o próprio Chico de Oliveira (2003) procurou clarificar a ideia de que o Brasil estaria, de uma vez por todas, saturado dos receituários de modernização, pelo futuro sempre anunciado e nunca alcançado. É por esta razão que a teoria social teria de reformular suas matrizes conceituais, para, assim, penetrar nesses tempos sociais discordantes que, no caso brasileiro (e latino-americano), assumiriam a forma cruel de um “ornitorrinco”. O Brasil transformar-se-ia, desse modo, em um “laboratório do desenvolvimento desigual e combinado de um capitalismo que parece continuar o mesmo” (Arantes, 2004, p. 77).
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Brasil de fato
Data:2012-09-19
Autor:Da Redação
Comentário Boitempo:
Título:Debates comemoram 40 anos do livro “Crítica à razão dualista”
Matéria:
O livro Crítica à razão dualista, do sociólogo Francisco de Oliveira, completa 40 anos em 2012. Para comemorar o aniversário da obra, considerada uma das principais publicações da sociologia brasileira, será realizado, em São Paulo e no Rio de Janeiro, um ciclo de debates sobre o livro.
Os seminários terão presença de pensadores como Paulo Arantes, Cibele Rizek, Paul Singer, André Singer, Roberto Schwarz, Leda Paulani, Luiz Werneck Vianna, Marcelo Ridenti, Leonardo Guimarães e Tânia Bacelar, além do próprio Chico de Oliveira. O objetivo dos encontros será reatualizar uma reflexão dialética sobre os impasses da atualidade brasileira.
Os eventos são realizados pelo Centro Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento; Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP; Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) e Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da UFRJ, com apoio da Boitempo Editorial. As atividades são abertas e gratuitas, sem necessidade de inscrição prévia.
Publicado primeiramente como um ensaio, em 1972, com o título “A economia brasileira: crítica à razão dualista”, o clássico foi transformado em livro em 1973. Na obra, Chico de Oliveira propôs uma nova forma de pensar a economia brasileira, oposta à da intelectualidade da época que, ao mesmo tempo em que denunciava a miséria em que vivia (ainda vive) a maior parte da população latino-americana, mantinha seu esquema teórico amarrado à economia de mercado.
Veja, a seguir, a programação do ciclo de debates.
21/09 | Sexta-feira | 14h | Rio de Janeiro (RJ) Auditório Manoel Maurício do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ
Av. Pasteur, 250 | Campus Praia Vermelha
Com a presença de Francisco de Oliveira, Cibele Rizek, Mauro Iasi, Reinaldo Gonçalves, Rosa Freire d'Aguiar e Tânia Bacelar
25/09 | Terça-feira | 17h30 | São Paulo (SP) FFLCH-USP
Sala 14 Ciências Sociais
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 | Cidade Universitária
Com a presença de Francisco de Oliveira, Leda Paulani, Luiz Werneck Vianna e Paulo Arantes
04/10 | Quinta-feira | 17h30 | São Paulo (SP) FFLCH-USP
Anfiteatro de história
Av. Prof. Lineu Prestes, 338 | Cidade Universitária
Com a presença de Francisco de Oliveira, Marcelo Ridenti, Roberto Schwarz e Paul Singer
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:ADUFRJ - Leitura indispensável
Data:2012-10-1
Autor:Elisa Monteiro
Comentário Boitempo:
Título:Para compreender o Brasil
Matéria:
Livro Crítica à razão dualista, do sociólogo Francisco de Oliveira, completa 40 anos e continua atual
Debate sobre a obra ocorreu dia 21, no CFCH
Quarenta anos desde sua primeira publicação, o conjunto de ensaios Crítica à razão dualista, do professor Francisco de Oliveira, titular de Sociologia da Universidade de São Paulo, se mantém atual para compreender a economia política brasileira. Em evento promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento para celebrar o aniversário da coletânea, no Rio de Janeiro, professores e pesquisadores de Economia, Sociologia e Serviço Social analisaram a pertinência da leitura da obra até hoje para diferentes campos de saber. Por motivos de saúde, o professor da USP não compareceu ao debate, realizado no auditório do CFCH da UFRJ, campus da Praia Vermelha, no dia 21.
“Na primeira vez que li o conjunto de seis teses brilhantes que compõem o livro, o que me chamou atenção foi seu método. Dez anos depois, quando voltei a ele, novamente, fiquei estonteado com o... método! E relendo ele, quarenta anos depois, ainda fico embevecido (com o método)”, afirmou Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da UFRJ. “Acho que essa é a grande contribuição do ponto de vista da ciência deste livro do Francisco de Oliveira”, explicou o docente. “A combinação de uma clareza e precisão na defesa de teses com aquilo que, na minha perspectiva, vai além da dialética para explicar a complexidade e a funcionalidade que há na relação entre o arcaico e moderno na sociedade brasileira”, completou o docente.
“Quando eu penso em crítica ao economicismo, é deste texto que eu lembro”, afirmou Reinaldo Gonçalves. A solução original encontrada por Francisco de Oliveira para não cair no raciocínio mecânico da economia como explicação única para todas as coisas foi ressaltada por todos debatedores.
As particularidades do capitalismo brasileiro
“Nenhum texto chega a ter a dimensão de relevância que este tem por acaso. Há textos que passam despercebidos quando são feitos, e depois de um tempo são homenageados; há textos que fazem um enorme sucesso quando surgem para depois serem condenados ao total esquecimento; e há textos que, como este, ocupam este papel tão importante”, avaliou Mauro Iasi, professor da Escola de Serviço Social/UFRJ e presidente da Adufrj-SSind.
Iasi destaca que “a dialética não simplesmente acopla ou soma as partes, mas constrói uma totalidade dinâmica” para analisar a particularidade do capitalismo no Brasil, no qual elementos do velho (arcaico) “se imbricam” como o novo (moderno). “Não é à toa que a gente tem que voltar a estudar populismo em suas experiências”, disse o docente. Segundo ele, a retomada do conceito permite outro olhar sobre as novas formas de fazer política, baseadas nas lógicas de “favor”, “clientelismo”, “focalização da questão social” e “lideranças carismáticas sobre partidos”. “A centralidade da luta de classes é algo que não se pode deixar de destacar dentro da análise de a Crítica à razão dualista”, destacou Iasi.
A crítica da crítica
Cibele Rizek (USP), que desenvolveu trabalhos diretamente com Chico de Oliveira, chama atenção para o fôlego e a originalidade analítica da Crítica à razão dualista. Ela cita, por exemplo, o tratamento despendido pelo autor ao tema da regulamentação trabalhista no período Vargas: “Ele (Oliveira) deixou claro que o salário mínimo atendia rigorosamente à subsistência e à reprodução da força de trabalho e à formação de exército de reserva para a urbanização em curso, portanto, à acumulação do capital”.
Tania Bacelar, economista da UFPE e do Centro Celso Furtado, assim como outros integrantes da mesa, fez referência à análise do autor sobre o sistema de poder do país: “A capacidade de explicar o Estado brasileiro, não como ente exógeno da sociedade, mas como expressão das relações de classes; um Estado que é parte da realidade social e lócus do embate de classe”, disse.
Na avaliação de Bacelar, ao debater a complexa relação complementar e não antagônica entre as economias rurais (arcaicas) e urbano/industriais (modernas) no Brasil, Chico de Oliveira deu novo significado à visão sobre o papel das periferias nos estudos da macroeconomia. Além disso, sublinha Bacelar, foi o autor quem “tirou o foco da questão da região e mostrou que o conflito estava na oposição capital e trabalho”.
Elisa Monteiro. elisamonteiro@adufrj.org.br
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:IHU
Data:2012-10-1
Autor:Da redação
Comentário Boitempo:
Título:“O capitalismo brasileiro – ornitorrinco – gera o Brasil invertebrado!” Entrevista especial com Reinaldo Gonçalves
Matéria:
Os 40 anos do livro A economia brasileira: crítica à razão dualista de Francisco de Oliveira é comentado pelo economista. "Penso que ele transcende o próprio esquema analítico marxista. Se Marx tivesse lido a Crítica da Razão Dualista teria aprendido a escapar de esquemas binários que aparecem em algumas de suas obras".
Em 1972, Francisco de Oliveira, sociólogo, lançava o livro A economia brasileira: crítica à razão dualista.Trata-se de um livro fundamental para a análise da atual realidade brasileira, não somente pela questão do método como também das ideias-chave, afirma Reinaldo Gonçalves, economista, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.
Segundo ele, “no início do século XXI, o Brasil é a simbiose entre o moderno e o arcaico, é o capitalismo malformado-ornitorrinco marcado por ineficiência sistêmica, que depende cada vez mais do setor primário-exportador e que se sustenta com a hegemonia às avessas”.
O Modelo Liberal Periférico, no Brasil, se caracteriza, segundo o economista, na dimensão econômica, por “fraco desempenho; crescente vulnerabilidade externa estrutural; transformações estruturais que fragilizam e implicam volta ao passado; e ausência de mudanças ou de reformas que sejam eixos estruturantes do desenvolvimento de longo prazo”. E continua: “Nas dimensões social, ética, institucional e política desta trajetória observa-se: invertebramento da sociedade; deterioração do ethos; degradação das instituições e sistema político corrupto e clientelista. É o país do desenvolvimento às avessas”.
Confira a entrevista:
IHU On-Line – O que significa a “razão dualista” para Chico de Oliveira? No que consiste sua crítica a esse tipo de razão?
Reinaldo Gonçalves – A “razão dualista” é o confronto entre o moderno e o arcaico na discussão sobre desenvolvimento no Brasil e em outros países; é o vício metodológico de se reduzir processos, relações e estruturas ao modelo dual-estruturalista, ao esquema binário (zero ou um). A contribuição de Chico de Oliveira é a “crítica da razão dualista” que mostra a simbiose e a organicidade que existe na “unidade de contrários, em que o chamado ‘moderno’ cresce e se alimenta da existência do ‘atrasado’”. O moderno e o atrasado não são rivais distantes e, sim, irmãos xipófagos.
IHU On-Line – Podemos dizer que há uma nova forma de pensar a economia brasileira, com o livro Crítica à razão dualista, de Chico de Oliveira? Por quê?
Reinaldo Gonçalves – A importância do livro está na combinação rara de teses claras e importantes, criatividade, coragem intelectual (enfrentar autores e posições estabelecidos), rigor analítico e método. Por ser uma rara combinação, poucos foram os trabalhos posteriores que envolveram esta “nova forma de pensar”.
IHU On-Line – De que maneira Chico busca cruzar política, economia e sociedade brasileira e seus conflitos em sua obra Crítica à razão dualista?
Reinaldo Gonçalves – Penso que é na questão do método. E aqui está a grande contribuição de Chico de Oliveira ao longo de quatro décadas. Este método implica crítica ao economicismo, recurso à economia política (interação entre a busca de riqueza e poder), o rigor analítico (cartesiano, mesmo) e o exercício da dialética que joga com a unidade de contrários. O eixo estruturante do método são as conexões entre padrões de dominação, acumulação e distribuição em uma sociedade de classes.
IHU On-Line – Qual o principal objetivo dessa obra de Chico de Oliveira? Podemos dizer que ele busca fundar ou refundar uma leitura marxista da história do Brasil moderno? Por quê? Qual a tese central da obra?
Reinaldo Gonçalves – A tese central é a baseada na crítica do modelo dual-estruturalista cepalino que identifica contrastes e distanciamento entre o moderno e o atrasado. Chico demonstra o equívoco deste modelo. Insisto que a grande contribuição é metodológica: é a articulação rigorosa entre padrões de dominação, acumulação e distribuição. Penso que ele transcende o próprio esquema analítico marxista. Se Marx tivesse lido a Crítica da Razão Dualista teria aprendido a escapar de esquemas binários que aparecem em algumas de suas obras: classes sociais (capitalistas vs trabalhadores), causas de crises econômicas (tendência decrescente da taxa de lucro vs problema de realização), padrões de dominação (propriedade dos meios de produção vs não-propriedade) e atuação do Estado (comitê da classe capitalista-opressores vs oprimidos). E, naturalmente, Marx teria aprendido muito sobre capitalismo subdesenvolvido.
IHU On-Line – Qual a análise de Chico de Oliveira no que se refere ao desenvolvimento brasileiro?
Reinaldo Gonçalves – Além da tese principal (simbiose entre atrasado e moderno), nos seis capítulos do livro há outras teses e argumentos importantes. Por exemplo, ele destaca a relação entre padrão de dominação e padrão de acumulação, ou seja, a quem serve o capitalismo brasileiro. Ele trata ainda da tese sobre o “socialismo dos tolos” de esquerda e de direita que associam a maior intervenção estatal com a autonomia do Estado em relação a classes e grupos sociais. Chico destaca ainda os fundamentos da Economia Política Internacional em que os conflitos entre grupos e classes sociais têm predominância em relação às rivalidades interestatais. Chico identifica também traços de ascensão do capital financeiro na disputa pelo excedente econômico no início dos anos 1970. Estes são temas de grande atualidade.
IHU On-Line – De que maneira Chico avalia o moderno capitalismo brasileiro?
Reinaldo Gonçalves – O subdesenvolvimento brasileiro era e é uma “produção” do capitalismo. O “subdesenvolvimento é uma formação capitalista e não simplesmente histórica”. Como mostrou Chico de Oliveira, se, por um lado, é verdade que fatores endógenos sejam determinantes dos padrões de dominação, acumulação e distribuição (como ocorreu na Era desenvolvimentista, 1930-79), também é verdadeiro que o capitalismo brasileiro é subdesenvolvido, subordinado. Não é por outra razão que neste capitalismo o capital estrangeiro tem papel protagônico. O desenvolvimento brasileiro é caudatário. Por exemplo, nos últimos anos a desindustrialização e a reprimarização da economia brasileira refletem exatamente esta situação.
IHU On-Line – De que forma Chico define “O Ornitorrinco”? Em que sentido este conceito ajuda a qualificar a espécie de capitalismo que se gerou no Brasil?
Reinaldo Gonçalves – O capitalismo subdesenvolvido da Era desenvolvimentista gerou, em fase posterior do seu ciclo de vida, um capitalismo “malformado, a meio caminho”. É o que Luiz Filgueiras chama de Modelo Liberal Periférico. Este modelo caracteriza-se por: “liberalização, privatização e desregulação; subordinação e vulnerabilidade externa estrutural; e dominância do capital financeiro. O modelo é liberal porque é estruturado a partir da liberalização das relações econômicas internacionais nas esferas comercial, produtiva, tecnológica e monetário-financeira; da implementação de reformas no âmbito do Estado (em especial na área da previdência social) e da privatização de empresas estatais, que implicam a reconfiguração da intervenção estatal na economia e na sociedade; e de um processo de desregulação do mercado de trabalho, que reforça a exploração da força de trabalho. O modelo é periférico porque é uma forma específica de realização da doutrina neoliberal e da sua política econômica em um país que ocupa posição subalterna no sistema econômico internacional, ou seja, um país que não tem influência na arena internacional, ao mesmo tempo em que se caracteriza por significativa vulnerabilidade externa estrutural nas suas relações econômicas internacionais. E, por fim, o modelo tem o capital financeiro e a lógica financeira como dominantes em sua dinâmica macroeconômica”.
Com o Modelo Liberal Periférico, os países geram o capitalismo malformado-ornitorrinco que tem os vícios e defeitos do capitalismo liberal e os defeitos e vícios das estruturas econômicas, sociais, políticas e institucionais da periferia. O capitalismo brasileiro – ornitorrinco – gera o Brasil invertebrado!
IHU On-Line – No que consiste a nova classe social brasileira, para Chico?
Reinaldo Gonçalves – Outra importante contribuição de Chico de Oliveira é a ideia de hegemonia às avessas, que é fundamental para se compreender o Brasil invertebrado. Nos últimos anos, “parece que os dominados dominam, pois fornecem a ‘direção moral’ e, fisicamente até, estão à testa de organizações do Estado, direta ou indiretamente, e das grandes empresas estatais. Parece que eles são os próprios capitalistas, pois os grandes fundos de pensão das estatais são o coração do novo sistema financeiro brasileiro, e financiam pesadamente a dívida interna pública. Parece que os dominados comandam a política, pois dispõem de poderosas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado”. Nos governos Lula e Dilma, “enquanto as classes dominadas tomam a ‘direção moral’ da sociedade, a dominação burguesa se faz mais descarada”.
IHU On-Line – Em que medida as críticas de Chico de Oliveira ao desenvolvimentismo nos anos 1930-72 podem ser estendidas ao novo desenvolvimentismo no século XXI?
Reinaldo Gonçalves – Chico alertou sobre o desvio criado pelo pensamento desenvolvimentista: “a teoria do subdesenvolvimento sentou as bases do ‘desenvolvimentismo ’ que desviou a atenção teórica e a ação política do problema da luta de classes, justamente no período em que, com a transformação da economia de base agrária para industrial-urbana, as condições objetivas daquela se agravaram”. Nos últimos anos, o novo desenvolvimentismo está fazendo a mesma manobra desviacionista ao focar nos problemas macroeconômicos de curto prazo e negligenciar questões importantes para o desenvolvimento: mudanças na estrutura de propriedade; estrutura tributária e distribuição de riqueza; vulnerabilidade externa estrutural nas esferas comercial, produtiva e tecnológica; influência de setores dominantes (agronegócio, mineração e bancos); e viés no deslocamento da fronteira de produção na direção do setor primário. O novo desenvolvimentismo desconhece o conteúdo de classes e os interesses dos setores dominantes (bancos, agronegócio, empreiteiras e mineradoras) que configuram os padrões de dominação, acumulação e distribuição no Brasil no século XXI.
IHU On-Line – As contribuições de Chico de Oliveira são importantes para a análise da atual realidade brasileira?
Reinaldo Gonçalves – Elas são fundamentais, não somente pela questão do método como das ideias-chave. No início do século XXI, o Brasil é a simbiose entre o moderno e o arcaico, é o capitalismo malformado-ornitorrinco marcado por ineficiência sistêmica, que depende cada vez mais do setor primário-exportador e que se sustenta com a hegemonia às avessas. O Modelo Liberal Periférico no Brasil se caracteriza, na dimensão econômica, por: fraco desempenho; crescente vulnerabilidade externa estrutural; transformações estruturais que fragilizam e implicam volta ao passado; e ausência de mudanças ou de reformas que sejam eixos estruturantes do desenvolvimento de longo prazo. Nas dimensões social, ética, institucional e política desta trajetória observa-se: invertebramento da sociedade; deterioração do ethos; degradação das instituições e sistema político corrupto e clientelista. É o país do desenvolvimento às avessas.
Reinaldo Gonçalves é formado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Obteve o título de mestre em Economia, pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-RJ, e de doutor em Letters and Social Sciences pela University of Reading, na Inglaterra. Atualmente leciona na UFRJ. É autor de Economia internacional. Teoria e experiência brasileira (Rio de Janeiro: Elsevier, 2004) e Economia política internacional. Fundamentos teóricos e as relações internacionais do Brasil (Rio de Janeiro: Elsevier, 2005).
Ficha de leitura.
OLIVEIRA, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista. Petrópolis: Cebrap/Vozes, 1972. Nova edição: São Paulo: Editora Boitempo, 2003
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Carta Maior - Política
Data:2012-10-02
Autor:Da redação
Comentário Boitempo:
Título:Chico de Oliveira debate “A crítica da razão dualista” na USP
Matéria:
Série de debates celebra 40 anos da obra que propôs uma nova forma de pensar a economia brasileira, oposta à da intelectualidade da época. As referências do sociólogo estavam no marxismo e nas teses da Cepal – as quais, para ele, fazem pouco sentido nos dias de hoje. “O Brasil é, ao mesmo tempo, centro e periferia. E, mesmo assim, é uma periferia nova”, afirma.
São Paulo – Os 40 anos do ensaio "A economia brasileira: crítica à razão dualista", do sociólogo da USP Francisco de Oliveira, vêm sendo celebrados com debates em diversas universidades. Em um desses encontros, na própria USP, foi possível ouvir a avaliação de Oliveira sobre esse clássico das ciências humanas do Brasil lançado em 1972 e a pertinência de sua abordagem nos dias atuais.
No ensaio, hoje republicado em livro pela editora Boitempo, Oliveira propôs uma nova forma de pensar a economia brasileira, oposta à da intelectualidade da época. Para ele, os intelectuais de então mantinham esquemas teóricos da economia de mercado ao analisar a pobreza nos países periféricos. Essa dualidade levava a visões reformistas que reduziam a luta de classes à demanda.
As referências do sociólogo estavam no marxismo e nas teses da Cepal – as quais, para ele, fazem pouco sentido nos dias de hoje. “A teoria cepalina, que orientou a política econômica de quase todos os países da América Latina, perdeu os pés, já que a teoria centro-periferia está completamente reestruturada”, disse ele, no debate realizado dia 25 de setembro.
Oliveira lembrou que a globalização traz novos desafios à compreensão teórica do Brasil, já que muda “os termos da relação centro-periferia”. “O Brasil é, ao mesmo tempo, centro e periferia. E, mesmo assim, é uma periferia nova”, afirmou.
Em 2003, ele publicaria Crítica à razão dualista/ O ornitorrinco (Boitempo). Além do relançamento do texto clássico, o novo ensaio (O ornitorrinco) usava a imagem desse animal meio mamífero, meio ave para explicar o capitalismo de um Brasil que não se enquadrava nos modelos teóricos formais existentes.
Próximo debate sobre os 40 anos de "A economia brasileira: crítica à razão dualista"
04/10 | Quinta-feira | 17h30 | São Paulo (SP)
FFLCH-USP
Anfiteatro de história
Av. Prof. Lineu Prestes, 338 | Cidade Universitária
Com a presença de Francisco de Oliveira, Marcelo Ridenti, Roberto Schwarz e Paul Singer